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Projetos fotográficos: questão de tempo

A fotografia está cada vez mais instantânea. E a sua evolução histórica parece ter sempre tido como norte torná-la mais rápida, pronta para ser publicada e vista o mais rápido possível. Atualmente, as fotografias feitas num determinado evento já estão nos meios de comunicação instantes depois. Ou as fotografias que tiramos no dia a dia são postadas quase ao mesmo tempo nas redes sociais.

Apesar disso, podemos pensar: qual o tempo necessário para se fazer um bom ensaio, contar uma boa história ou desenvolver uma ideia? Minha tendência é pensar que, quanto mais tempo, melhor será o resultado do trabalho.

Indo nessa linha, podemos olhar para projetos de alguns fotógrafos que levaram meses ou anos para serem concluídos. Edie Bresler dedicou-se a uma série que retratou locais, como lojas de conveniência, que venderam bilhetes de loteria premiados nos Estados Unidos. Já o premiado projeto de M. Sharkey, Queer Kids, foi realizado com jovens homossexuais. Andri Tambunan mostra, em sua série, Against All Odds, a epidemia de HIV na população de Papua, a maior província da Indonésia.

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O que se pode perceber nesses ensaios é que o resultado é extremamente diferenciado. O trabalho num projeto fotográfico longo permite ao autor desenvolver uma série de aspectos que elevam a qualidade da sua fotografia:

  1. Envolvimento: fotografamos melhor aquilo que conhecemos. Ao fotografar continuamente um mesmo assunto, ou um mesmo local, ou um grupo de pessoas, temos a chance de explorar, entender e valorizar, através da câmera, o que está sendo fotografado.
  2. Desenvolvimento da linguagem: ao realizar um ensaio, o fotógrafo precisa de algo que dê unidade às fotos. Seja pela narrativa, pela estética ou por aspectos técnicos, é a coesão da linguagem fotográfica apresentada que dará força ao projeto como um conjunto. Com mais tempo, o fotógrafo tem chance de aperfeiçoar essa linguagem até que ela esteja perfeitamente adequada ao tema.
  3. Processo: quando não estamos preocupados com a publicação imediata da fotografia, podemos dar mais ênfase ao processo no qual estamos envolvidos, e menos ao resultado. Isso geralmente permite mais abertura e flexibilidade, levando à descoberta de formas alternativas de abordar o mesmo tema. O foco no processo também faz com que o trabalho em si seja mais prazeroso e significativo para o fotógrafo.
  4. Seleção: passando mais tempo fotografando, inevitavelmente será produzida uma quantidade maior de material. Ainda assim, no momento de apresentar o projeto, o fotógrafo terá um número limitado de fotos a serem selecionadas. Por conta disso, ele terá que aprender a deixar de lado tudo que não for realmente muito bom, o que elevará a qualidade da sua fotografia.

É fantástico estar numa época em que podemos praticamente reduzir a zero o intervalo entre o momento em que uma foto é tirada e em que ela é publicada. Entretanto, o fato de que uma maneira de fazer fotografia ser possível não significa que precisemos esquecer as outras. Até porque, pelo que vimos, o tempo para realizar uma obra fotográfica significativa pode ser exponencialmente maior: na verdade, pode ser o trabalho de uma vida.

Fotos: Matthew Chamberlain

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DxO Filmpack

Quando se está acostumado a fotografar com negativo preto e branco ou positivo colorido, ficamos muito ligados aos resultados característicos desses processos. Esses resultados são tão distantes de fotografias digitais não trabalhadas que dá a impressão de que há um abismo intransponível entre elas.

Por exemplo, as fotografias digitais, quando (mal) convertidas para preto e branco, podem apresentar alguns problemas, especialmente quando se tem na cabeça o referencial da fotografia analógica:

  • pouco contraste, aquele cinzão meio escuro predominante
  • muito contraste, deixando os pretos muito pretos e os brancos muito brancos
  • perda de detalhes nas altas luzes
  • ausência da suavidade nos tons proporcionada pelo grão

Já no caso das fotografias coloridas, as fotografias digitais pareciam não ser capazes de representar bem certos tons de vermelho e outras cores quentes, que aparecem tão bem nos cromos, por exemplo.

Ainda assim, nos últimos tempos tenho visto fotografias digitais com resultados muito bons, inclusive na conversão para preto e branco. Talvez isso se deva à uma melhora na qualidade dos sensores de câmeras mais recentes, o que não parece ser uma boa explicação, pois geralmente esses evoluções são muito mais sutis do que a publicidade dos fabricantes de câmeras nos faz acreditar.

Provavelmente, um fator importante é o tratamento das fotos digitais. É possível que, ao se dedicar a essa etapa da produção de fotografias o suficiente, seja possível obter resultados tão interessantes quantos os da fotografia analógica. Por conta disso, resolvi testar o DxO Filmpack, da DxO Labs. Já adianto que isso não é propaganda: se você quiser usar o Filmpack, pode ir atrás de algumas versões antigas que saíram de graça. Outros programas ou presets que simulam o filme podem ser encontrados para Lightroom, Aperture e Photoshop, como os do Presetpond.

O Filmpack é um programa simples, não voltado para fazer conversões de RAW ou ajustes mais complexos como o Photoshop ou Gimp. Ele pressupõe que você tenha um arquivo já convertido e relativamente equilibrado em termos de exposição e cor. Você só pode editar uma fotografia de cada vez — embora os filtros possam ser aplicados em lote — e a essência do programa é aplicar o visual de um filme específico na foto. Esses filtros, que têm o nome dos filmes que eles pretendem simular estão divididos em categorias: positivo colorido, negativo colorido, negativo preto e branco e filtros criativos.

Você pode escolher o visual de um filme (cores e tons) e o grão de outro. Além disso, pode fazer ajustes de curvas, contraste, microcontraste, saturação e efeitos como bordas e vazamentos de luz. Isso permite que você faça combinações únicas e salve como filtros personalizados. Abaixo seguem alguns exemplos de fotografias processadas com o DxO.

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Forma e conteúdo

Vamos considerar uma pessoa que usa a fotografia no seu cotidiano, sem dedicar a ela importância especial. Para ela, a fotografia é uma forma de registrar um determinado momento ou acontecimento de sua vida. Ela fotografa pessoas de quem gosta, eventos importantes, lugares em que esteve. O sentido da fotografia é dizer: “vivi este momento”, “estive aqui”, “estive com esta pessoa” ou “possuo esta coisa”. Pode-se dizer que um dos aspectos dessa fotografia descompromissada com a fotografia em si, que é a que a maior parte das pessoas pratica, é totalmente voltada para o conteúdo. A única preocupação que a pessoa que fotografa tem em relação ao equipamento ou à maneira como as fotografias são processadas é se elas representam de forma adequada o conteúdo que elas desejam mostrar.

Agora, tomemos como exemplo uma pessoa que gosta de fotografia, que a estuda, que tem a fotografia como profissão ou como atividade amadora séria. A tendência é que as pessoas que têm esse perfil passem a enfatizar mais a forma ao conteúdo. As preocupações se voltam para aspectos como composição, iluminação, nitidez, cores, desfoque. A partir dessas preocupações, surge o interesse por equipamentos novos, como câmeras, lentes, filmes, programas de edição de imagem, a fim de ter mais domínio sobre a forma.

Entretanto, não é incomum que a ênfase na forma se torne o único foco da fotografia, levando a uma busca pela aparência perfeita de uma imagem sem conteúdo. Isso acontece, em parte, porque o caminho para a forma perfeita é mais visível e conhecido; ele se dá pelo estudo e aquisição de técnicas e equipamentos. Por outro lado, desenvolver o conteúdo não é tão simples. É mais fácil saber “como fotografar” do que “o que fotografar”.

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A forma não se relaciona com o conteúdo em termos de ou, mas sim de e. Se você reparar bem, perceberá que bons fotógrafos são aqueles que conseguem trabalhar bem esses dois campos em suas fotografias. E, mais do que uma forma de fotografar previamente concebida como boa, a forma da boa fotografia é aquela que dialoga com o conteúdo. Portanto, vale a pena refletir sobre como anda, na nossa fotografia, o equilíbrio entre essas duas áreas. Às vezes, quando se depara com uma estagnação na nossa produção fotográfica, uma saída pode ser buscar maneiras de desenvolver a que tem recebido menos atenção.

Vale ressaltar, também, que esses conceitos são puramente didáticos. Na verdade, forma é conteúdo e conteúdo é forma. Cada fotografia é uma coisa só. O que mostramos e como mostramos são apenas perguntas que fazemos para direcionar o nosso olhar, mas o fazer fotográfico é um só.

A busca do significado na fotografia — na forma, no conteúdo, no fazer e no olhar — é tema da oficina O Nome das Coisas, que será realizada em agosto de 2014 no Espaço f/508, em Brasília.

Foto do cabeçalho: Paul Aningat