A Importância do Equipamento na Fotografia
Discussões sobre equipamento fotográfico dominam 90% das mensagens postadas em fóruns sobre fotografia na internet, excetuando-se as postagens de fotos — embora muitas vezes as fotos sirvam apenas para discutir mais sobre equipamento. Só gosto de falar sobre câmeras, lentes etc se, na conversa, fala-se sobre a influência do material na linguagem e no aprendizado da fotografia. Porém, raramente isso ocorre.
Num dos debates mais recorrentes dentro desse tema, discute-se sobre a necessidade ou não de bons equipamentos para boas fotografias. Colocado dessa forma tão ampla, fica complicado responder. Ainda assim, Ken Rockwell coloca sua posição radical em “Your Camera Does Not Matter” (Sua câmera não é importante). O título diz tudo.
Por outro lado, li com algum incômodo o artigo “O Equipamento Faz a Diferença?” no site Ricciardi Online. Enquanto Rockwell aponta que com qualquer câmera é possível fazer boas fotos, Ricciardi afirma que apenas com bons equipamentos você terá garantias de não perder fotos e fazer aquilo que quer. Prefiro me ater à este segundo artigo, embora não concorde integralmente com o primeiro.
O primeiro ponto com o qual discordo é a forma como o assunto foi abordado. O raciocínio me parece invertido. O autor argumenta que para fazer determinados tipos de fotos é preciso determinados tipos de equipamentos. Isso é óbvio: para fins específicos, precisa-se de meios específicos. Mas isso não invalida o principal contra-argumento sobre essa idéia: você não pode fazer tudo com qualquer câmera, mas certamente pode fazer boas fotos com qualquer câmera.
O segundo ponto equivocado é partir do pressuposto que todos os fotógrafos são profissionais; ou que todos querem fotografar pássaros a 1 quilômetro de distância; ou que todos querem fazer macros de joaninhas caminhando pelas suas folhas. Mais uma vez, o pensamento inverso é mais abrangente: partir do que se tem, e fazer com isso o possível. E o possível é muito.
O terceiro aspecto são as toscas comparações com outras atividades nas quais os respectivos equipamentos seriam muito relevantes. Comparar fotografia à fórmula 1 ou à medicina é tão inconveniente que mal merece discussão. Basta dizer que a fotografia, como considerada aqui, é uma atividade artística e, como tal, conta com tantas possibilidades quanto forem os fotógrafos. Não há objetivos, valores ou vencedores pré-definidos. Em relação à pintura, se um bom pintor só é um bom pintor com os melhores pincéis e tintas, talvez ele não seja tão bom assim. O curioso é que pouco se fala sobre as marcas dos pincéis dos grandes mestres.
Acho que na preocupação excessiva na posse e priorização do equipamento sobre outros fatores está uma necessidade de auto-afirmação tipicamente masculina, mas que merece um outro texto só para discuti-la. Além disso, o artigo de Ricciardi reflete a falsa necessidade de consumir para realizar, fomentada pelo marketing das fabricantes e que encontra ressonância em pessoas que defendem uma marca como se fosse a própria mãe.
Pelo que já conversei sobre o assunto e pela minha própria experiência, não há melhor forma de aprender a fotografar — e fazer fotos realmente boas — do que limitar o próprio equipamento. Movimentar-se em vez de girar o anel de zoom; perseguir uma boa luz para compensar uma lente não tão clara; encontrar um enquadramento bom dentro da distância mínima de foco; esperar por um bom momento e algumas vezes, até, resignar-se de perder uma foto por não ter o equipamento necessário são experiências edificantes. Claro que não defendo que se abandone a tecnologia ou que se autoflagele sempre dessa forma. Mas experimentar essas situações, uma vez que seja, pode abrir horizontes.
Mais do que eu posso dizer, Ralph Gibson, um dos grandes fotógrafos da atualidade, afirma:
“Hoje, basicamente ando pelo mundo só com uma câmera, uma lente 50 mm e muitos filmes. Acho que é só disso que precisamos.” (Fonte: Fotosite)
Postado originalmente no Multiply.

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Você está lendo um artigo escrito por Rodrigo F. Pereira
- Publicado em:
- 09.04.07 / 10pm
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