O Incômodo

Algumas vezes, quando as pessoas falam de minhas fotos, elas apontam algum detalhe que as incomodam, ou que lhes parece fora do lugar, embora o “resto da foto” esteja bom. Embora essas afirmações sejam feitas em tom de crítica, eu tomo como algo bastante positivo.

Quando as pessoas fazem críticas, elas costumam ter um referencial prévio do que é a foto ideal. Elas, então, comparam a foto que está na sua frente com esse referencial, e passam a apontar os “erros”, ou aquilo que não se encaixa. E, geralmente, um dos erros é fazer uma foto em que a mensagem não é uníssona, ou seja, quando há detalhes dissonantes ou que destoam da idéia geral da imagem.

O autor, ao divulgar uma foto, passa a bola ao observador. Este, quando faz o seu comentário, não está tornando público apenas o que acha do que está vendo, mas também toda a sua história passada e os referenciais que usa para julgamento. A crítica é, antes de mais nada, uma declaração sobre si mesmo.

Esperar, então, uma mensagem uníssona mostra que o referencial do observador é basicamente um referencial construído a partir dos tipos de imagens mais comuns e que temos mais acesso, que são as fotos publicitárias ou jornalísticas. Nessas atividades, salvo algumas exceções, a idéia é que quanto mais claro, explícito e objetivo melhor, a fim de que a leitura seja fácil. Portanto, qualquer detalhe que dificulte a compreensão é visto como um defeito.

A foto abaixo é um exemplo de imagem construída nesses moldes. Não é exatamente uma foto publicitária ou jornalística, mas ela contém uma mensagem e uma história simples, que se fecha. Há até um texto, que facilita ainda mais a definição de uma idéia. Não há grandes problemas para o observador aqui. Podemos dizer que facilitamos bastante a sua vida.

Image Hosted by ImageShack.us

No entanto, esse é o tipo de foto que menos gosto de fazer. Falta, aqui, um desafio, tanto para quem faz como para quem vê. E é justamente isso que pode ser traduzido como incômodo. Barthes, em a Câmara Clara, fala de púnctum: o detalhe na foto que incomoda, que “aponta para o observador”. E, para ele, as boas fotos tem justamente esse elemento. Se não o tem, podem ser imagens bonitas, bem-feitas, mas não mais do que isso. Pierre Dubois fala de um fora-do-quadro. As fotos “fechadas”, completas dentro do studium, lidam pouco com isso. Já as fotos que incomodam mostram essa relação de uma maneira mais pungente, de forma que não pode ser ignorada, gerando desconforto.

Percebe-se, então, que o gosto pela foto que se fecha refere-se a evitar o incômodo e ter uma leitura fácil, homogênea. A produção de imagens com fins publicitários adota completamente essa filosofia. Adotam-se modelos em escala, criam-se cores e luzes irreais, tudo para que a leitura seja simples e não haja nenhum detalhe fora de controle. Afinal de contas, nesse contexto, o incômodo pode significar uma falha na transmissão da mensagem, resultando no fracasso utilitário da fotografia.

No entanto, quando não estamos fazendo fotografia utilitária, não é necessário temer o incômodo. Na verdade, pode-se até jogar com ele. Abaixo, segue uma foto em que houve relato de desconforto.

Image Hosted by ImageShack.us

O desconforto, aqui, não foi causado pelo corte no corpo, nem pela geometrização de pernas e braços. Tudo isso, como diria Barthes, faz parte do studium, da proposta consciente da foto. O que foi apontado como problema é o fato de os chinelos estarem em posição trocada. E isso não foi percebido na hora em que tirei a foto (mesmo que tivesse notado, não teria consertado), apenas quando alguém se viu incomodado (apontado) por esse detalhe.

São esses jogos de descoberta que tornam a fotografia interessante. Se as fotos que fazemos não tem uma utilidade que defina sua forma, como na fotografia profissional, temos a liberdade de explorar essas possibilidade. Parece-me um contra senso que, ao termos total liberdade, desperdiçamo-la imitando os paradigmas de uma atividade dirigida. Fica-se entre fazer fotos padronizadas, na segurança de um modelo definido, mas que produz apenas resultados insossos ou experimentar, assumindo os riscos inerentes a lidar com o novo e o diferente. Isso significa, mais do que qualquer outra coisa, incomodar-se a si mesmo.

Referências
Barthes, R. (1980). A Câmara Clara. Lisboa: Edições 70.
Dubois, P. (1994). O Ato Fotográfico. Campinas: Papirus.

Creative Commons License
Este artigo, a menos que expressamente declarado no texto, está publicado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 3.0 Brazil License.

Sobre este artigo