« Automatismos e pós-processamento: por que não? | Home | Nokia N95: análise da câmera »
Validando a produção fotográfica
Um amigo comentou um dia desses que o Fickr bateu na casa dos três bilhões de fotos. E emendava: qual a importância da sua fotografia no meio desse oceano de imagens digitais? Pergunta difícil essa. Uma das conclusões que chegamos é que dificilmente se faz algo novo, realmente inovador e original. Praticamente tudo já foi feito e o ser original hoje já não tem mais o mesmo sentido que tinha antigamente, quando as artes visuais pareciam caminhar de forma linear. Como saber, então, se aquilo que fazemos tem qualidade?
A Internet é fantástica para a comunicação. Podemos trocar instantaneamente fotos com amigos e familiares que estão em qualquer lugar do mundo. Podemos mostrar fotos para centenas de desconhecidos com um clique no mouse. Isso é bastante estimulante para o fotógrafo amador que busca dar um sentido àquilo que faz. Mas será que de fato esse sentido é encontrado nesses meios?
Quando navegamos por galerias online, como o Flickr, ou por fóruns de fotografia e fotoblogs, percebemos que o sistema é mais ou menos o mesmo. Publicam-se fotos e se recebem comentários em troca. É de bom tom que você comente de volta nas fotos dos outros. Acaba que se mede a qualidade de uma foto pelo número de comentários que ela recebe. No entanto, talvez isso não seja suficiente para de fato dar sentido à produção fotográfica de alguém, a menos que o seu objetivo maior seja apenas o de receber algumas palavras positivas de pessoas aleatórias. Especialmente considerando que essas pessoas aleatórias têm conhecimentos e interesses difusos, sobre os quais sabemos pouco. Não parece estranho, então, que se direcione a forma de fotografar com o intuito de produzir uma maior quantidade desses afagos virtuais?
Além disso, há a questão da linguagem. Cada meio de comunicação ou de veiculação de fotos favorece uma determinada linguagem. As galerias online geralmente utilizam miniaturas. Isso significa que, para ser bem recebida, a foto precisa ter uma composição simples e limpa o suficiente que possa ser atraente mesmo que a imagem tenha o tamanho de uma unha. Fotos complexas, trabalho com planos, ângulos mais elaborados provavelmente não terão a mesma aprovação de fotos com corte mais agressivo e enquadramentos simples.
Eu não sou reacionário ou inimigo dos novos modos de comunicação. Tanto que tenho um blog, tenho uma conta no Flickr e participo de fóruns de fotografia. Mas tenho a consciência de que, em relação à validação da minha própria produção, esses espaços podem não ser suficientes. É necessário encontrar uma forma de se ter um feedback mais amplo sobre aquilo que fazemos.
Consigo pensar em algumas formas de se obter isso. Há, por exemplo, eventos de leitura de portfólio, em que artistas consagrados avaliam as fotos dos candidatos. Há os grupos de fotógrafos ou fotoclubes, em que se tem a chance de discutir cara a cara a qualidade das fotos. É possível tentar montar uma exposição em pequenos centros culturais ou comerciais. Outra possibilidade é criar uma rede de pessoas cujas opiniões são válidas e ter uma rotina de troca de fotos.
Há, no entanto, um detalhe fundamental para que essas iniciativas funcionem: as fotos precisam estar no papel. Ou, mesmo que não estejam no papel, precisam ao menos ser grandes, através de projeções, por exemplo. A ampliação (com fotos em no mínimo 20x30cm) é o primeiro grande avaliador das próprias fotos. Através dela podemos ver que alguns aspectos técnicos que parecem tão relevantes na tela simplesmente não aparecem. Ou que detalhes que parecem desimportantes passam a ter destaque.
Além disso, quando as fotos se tornam objetos que você pode olhar em uma ou outra luz, que pode mostrar pessoalmente para outros, que pode dar de presente, emoldurar ou o que for, elas assumem de fato o seu potencial. Lembro que quando ajudei na curadoria de uma exposição de um fotoclube, selecionamos as fotos na tela, para depois imprimir em 30×45. Algumas fotos que reduzidas pareciam confusas e poluídas, adquiriram um porte fantástico quando ampliadas. E, ao contrário, as imagens que pareciam ótimas na tela — justamente por terem aquela linguagem simplificada que funciona em miniatura — perdiam a graça quando vistas no tamanho grande.
Portanto, é preciso tomar cuidado com a avaliação que se faz e que se recebe dentro do computador. Transformar as fotos em algo mais do que um conjunto de pontos luminosos na tela é fundamental quando se quer ter de fato a noção precisa de quão bom é aquilo que estamos fazendo, seja através de ampliações em laboratório, em impressoras domésticas ou projeções de slides. Ao pendurar fotos na parede, presenteá-las aos amigos, mostrar em uma roda de colegas e pedir opiniões o feedback será muito mais confiável, além de ser uma experiência muito mais prazerosa e completa.
Sobre esta entrada
Você está lendo “Validando a produção fotográfica,” uma entrada do Câmara Obscura
- Publicada:
- 19 Nov 2008 / 06:30
- Autor:
- Rodrigo F. Pereira
- Categoria:
- Artigos
5 Comentários
Pular para forma de comentário | rss dos comentários | trackback uri