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As digitais de fato têm menor latitude? E daí?
Sempre ouvi dizer que uma das deficiências das câmeras digitais em relação ao filme seria a menor latitude de exposição. Uma vez que eu não sou um expert técnico nem me interessa entender essa questão através da leitura de gráficos e fórmulas matemáticas, vou abordar o problema por uma perspectiva prática e subjetiva.
Estou considerando latitude como a faixa de luminosidade em que há captura de detalhes pela câmera, ou seja, em que se percebem gradações de sombras, sem áreas de estouro ou sombra completos. Em um programa de edição de imagens, pode-se optar por obter informações da foto na passagem do mouse. Áreas em que os canais aparecem como 0, 0 e 0 ou 255, 255 e 255 estão fora da latitude da câmera.
Diz-se, então, que as câmeras digitais tem uma latitude pequena, o que significa que em cenas com uma variação muito grande de luminosidade, diversas áreas aparecerão como sombras ou estouros completos, reduzindo o nível de detalhes observados. No entanto, sempre tive a impressão de que isso não seria uma verdade absoluta, considerando a fotografia em RAW.
Tomemos como exemplo a imagem acima. Fiz essa foto numa situação de contraste bastante alto. Sol de verão quase a pino e diversas áreas de sombra. Com ajustes conservadores na conversão do RAW, temos plena legibilidade tanto na área de sombra quanto na área de luz. Da área central para a parte ensolarada, havia uma diferença de cerca de 6 pontos de luz, bem administrados pela máquina. Houve perda de detalhes nas àrvores do lado esquerdo, ao fundo e no carro branco a direita. Ambos ficaram fora da faixa em que a câmera conseguia capturar detalhes. Provavelmente a variação de luz de uma dessas áreas para a outra superaria os 10 pontos.
A questão é: como seria se eu tivesse mais latitude? Se fosse o caso, a câmera teria que espremer mais gradações de luz dentro do espectro de 255 variações para cada canal de cor. E de fato temos essa latitude: podemos, na conversão do RAW, ganhar detalhes nas áreas de sombras e altas luzes. Ou seja, a câmera tem capacidade de gerar arquivos com ainda mais flexibilidade do que o apresentado acima. O problema é que uma imagem com maior latitude e mais detalhes sairia com contraste mais baixo, como a versão seguinte:
Percebe-se claramente o ganho de detalhes, especialmente nas áreas mais escuras. No entanto, a foto ficou com um aspecto artificial e desbotado, sem graça. Esse ganho pode ser útil e interessante em algumas aplicações específicas, como fotos de paisagens. Mas no geral, não é interessante. Isso me leva a pensar que as câmeras digitais têm sim uma boa latitude quando usamos RAW — e a máquina em questão é uma velhinha e simplória K100D. Contudo, essa latitude extra geralmente é descartada por uma questão estética, de aspecto natural da cena e do impacto através do contraste. Adicionar contraste, que é uma prática comum, significa, de certa forma, diminuir a latitude. Será que faz sentido, então, reclamar da suposta falta de latitude das digitais, se essa falta não é tão grande assim e se mesmo o que já se tem hoje não costuma ser usado?
Essa é a minha visão extremamente prática. Acho bem provável que possam ser citadas situações em que essa suposta maior latitude seja extremamente útil, bem como sejam mostrados trabalhos em que se pode conjugar maior latitude com uma boa resolução estética. E há também todas as questões técnicas sobre as quais tenho pouco conhecimento para abordar, portanto esse texto fica totalmente aberto (e dependente) para comentários de quem puder contribuir com essas questões.
Sobre esta entrada
Você está lendo “As digitais de fato têm menor latitude? E daí?,” uma entrada do Câmara Obscura
- Publicada:
- 21 Dec 2009 / 09:47
- Autor:
- Rodrigo F. Pereira
- Categoria:
- Didáticos e informativos, Equipamento fotográfico


4 Comentários
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