Técnica e linguagem: resolução e pontos
Nos últimos anos, o principal aspecto no qual as câmeras digitais mudaram foi na sua resolução, expressa na quantidade de megapixels. Enquanto há 10 anos as câmeras tinham, quando muito, 1 ou 2 megapixels, hoje qualquer câmera compacta e baixo custo tem mais de 10 e os modelos profissionais mais comuns passam de 20.
O que é, no entanto, um megapixel e qual o impacto prático da sua quantidade? Os pixels são os minúsculos receptores de luz presentes no sensor da câmera, responsáveis por formar a imagem. O prefixo mega corresponde à sua quantidade, sendo que 1 megapixel = 1 milhão de pixels. A quantidade de megapixels no sensor da câmera (e, consequentemente, na formação da foto) é obtida através da sua resolução. Uma foto que tenha, por exemplo, 3mil pixels no seu eixo horizontal e 2000 pixels no seu eixo vertical terá uma resolução descrita em 3.000×2.000 que corresponde a 6.000.000 de pixels, ou 6 megapixels.
Câmeras com mais megapixels geram mais resolução, o que permite a captura de mais detalhes para observação na tela e impressões maiores mantendo o mesmo padrão de qualidade. No entanto, essa busca por resoluções maiores não é exclusiva do sistema digital. Na fotografia analógica, a imagem não é formada por pixels, mas por grãos de compostos químicos reagentes à luz. Muitos fabricantes buscavam chegar a grãos menores e com formatos regulares, a fim de obter, da mesma forma, mais detalhes e maior possibilidade de impressão sem perder a qualidade.
Por qualidade, entenda-se uma imagem que não pode ser desconstruída. Flusser afirma que uma das características essenciais da imagem técnica é ser formada por pontos (pixels na fotografia digital e grãos na fotografia com filmes). Os pontos devem ser em tal número que não possam ser distintos entre si, formando uma imagem que aparenta ser íntegra. Tal unidade, no entanto, é uma ilusão, um truque. A fotografia, então, seja ela vista na tela, seja impressa a partir de um arquivo digital ou de um negativo, é apenas um aglomerado de pontos. Manter a qualidade significa não revelar esses pontos, não ampliar a imagem de forma que eles possam ser percebidos. Significa, também, representar os menores detalhes e texturas. Em outras palavras: criar a melhor ilusão possível.
Assim, quando percebemos que a resolução é apenas mais um dos aspectos constitutivos da imagem, podemos abrir mão de buscá-la inconscientemente, mas usá-la de acordo com as nossas intenções. As fotos que ilustram esse artigo, por exemplo, não só se caracterizam pela baixa resolução, mas também pela evidência dos pontos (pixels ou grãos). Abre-se mão de criar a ilusão verossímil para tornar o ponto um aspecto evidente, clarificando a forma de construção da imagem — coisa que geralmente se tenta esconder.
Para obter esse aspecto, pode-se usar filmes com ISO mais alto, de 400 para cima, fazer fotos subexpostas e compensar na revelação. Para fotos coloridas, pode-se tentar também o processo cruzado (fotografar em cromo e revelar como negativo). Nas fotos digitais, o procedimento é parecido, usar os maiores ISOs da câmera para evidenciar o ruído ou tirar fotos escuras e compensar no pós-processamento.
Ao seguir na contramão da fotografia tecnicamente perfeita, que persegue fotos nítidas, cheias de detalhes e sem grão ou ruído, deixa-se de apenas registrar, documentar ou criar uma ilusão e se permite criar uma linguagem distinta da “oficial”, mostrando o processo em vez de ocultá-lo. Ao fazer isso, além de se soltar das amarras das exigências técnicas, o fotógrafo depende menos do assunto, tornando a fotografia mais criativa.

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