A Agressividade na Fotografia

O ato de fotografar pode ser agressivo de diversas maneiras, embora a maioria dos fotógrafos não pense dessa forma. Há fotógrafos que falam em “construir” fotografias em vez de tirá-las. Contudo, a mudança no termo utilizado não modifica a essência do ato em si.

Fotografar é agressivo na medida em que reflete um desejo do fotógrafo de se apropriar de uma parte do mundo, seja um por-do-sol, uma flor ou até uma pessoa. Aquilo que é fotografado passa a ser propriedade. A câmera delimita, corta e toma para si uma parte do real. E, independentemente do enquadramento, o corte é sempre agressivo, na medida em que separa um objeto de seu contexto,fracionando a realidade.

É muito difícil acreditar que quem fotografa pessoas sofrendo (como mendigos, doentes etc) possa realmente ter uma consciência do resultado do que faz. Esse tipo de foto já não tem mais um sentido de denúncia, uma vez que já somos bombardeados constantemente com essas imagens. Já estamos dessensibilizados e só nos tornamos ainda mais indiferentes à realidade através de imagens de sofrimento. Essas fotos podem funcionar, então, mais como um troféu para o fotógrafo do que um instrumento de mudança social.

Em um dos encontros que participei, havia membros de um proeminente grupo de fotografia. Uma senhora que vendia bilhetes de loteria passou por nós e, ao ver as câmeras, pediu que não fosse fotografada. Ignorando seus apelos, esses fotógrafos dispararam impiedosamente suas câmeras contra ela. Os fotógrafos fingiam algum interesse apenas para mantê-la próxima enquanto disparavam saraivadas de cliques. Ela, ali, já deixara de ser uma pessoa e se tornara apenas um objeto inanimado e “interessante” para as lentes. Eles não tinham nenhuma preocupação social ou pessoal com o ser humano que estava à sua frente: só buscavam uma boa fotografia, para si mesmos.

As câmeras podem ser instrumentos dotados de poder por quem as usa. Não é a toa que muitas pessoas (especialmente homens) discutem tanto sobre qual é o melhor equipamento e tentam sempre serem os melhores. Fica difícil sair da lógica freudiana nesse aspecto, com demosntrações tão claras do desejo de ter o maior “poder”. Máquinas fotógráficas são muito parecidas com armas: vide o termo “point-and-shoot” (aponte e dispare). Já fiquei surpreendido como uma discussão sobre a atividade fotográfica, num fórum de fotografia, transformou-se em uma discussão sobre armas.

Alguns autores associam a fotografia à morte, mas não essa maneira tão crua e banal. A fotografia, ao capturar um momento quase infinitamente minúsculo de tempo (seja qual for o tempo de exposição), liga-se a uma efemeridade que, em última instância, representa a própria morte. Fotografias geralmente duram mais do que os assuntos (vivos) fotografados.

É difícil, e talvez contraprodutivo, tentar dissociar a fotografia da agressividade. Há, porém, espaço para a generosidade e a criação. O primeiro passo é a consciência desses aspectos intrinsecos ao ato de fotografar.

Referências:
Sontag, S. (1981). Sobre Fotografia. Rio de Janeiro: Arbor.
Barthes, R. (1980). A Câmara Clara. Lisboa: Edições 70.

Um comentário sobre “A Agressividade na Fotografia

  1. Rodrigo,

    S? descobri o C?mara Obscura ontem, mas acho que vou ficar por aqui… Muito oportuno o seu texto.

    Avesso a obter fotos sem consentimento, j? senti que, mesmo quando concordam em ced?-las, algumas pessoas ainda ficam tensas, incomodadas quando arrostadas pela “arma” fotogr?fica. Para tentar minimizar pelo menos este aspecto da agressividade, estou na imin?ncia de adquirir uma Rolleiflex. Talvez o fato de n?o encarar o “referente” de forma direta acabe por deix?-los mais ? vontade.

    Concordo ipsis literis com o que diz a respeito das famigeradas fotografias de sofrimento, mis?ria ou desgra?a. Al?m de nada acrescentarem de positivo, acabam produzindo efeito reverso, ajudando a tornar os espectadores cada vez mais insens?veis, pois de t?o familiarizados com problemas desse tipo, passam a consider?-los como algo “normal”. Ali?s, Susan Sontag, citada por voc? nas refer?ncias, trata do tema com profundidade em “Diante da dor dos outros”.

    Um abra?o.

  2. Isso me lembrou quando fui num evento sobre fotografia e passaram um vídeo (que tem no youtube) no qual mostra Cartier Bresson feito um “louco varrido” fotografando as pessoas numa rua movimentada. As pessoas, na maioria não gostavam, mas movidos à educação européia da época não paravam para reclamar.

    Sempre gostei das imagens do Bresson, mas confesso que, depois de vê-lo em ação, parei para pensar sobre esta idéia de “street photography”.
    PS: Sem contar que, no nível pessoal, Bresson demonstra ser um daqueles gênios anti-sociais, que não gostam de ser incomodados. Mas que gostam de incomodar os outros…

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