A fotografia como comportamento verbal

Outro texto postado originalmente no Multiply que rendeu uma belíssima discussão.

B. F. Skinner dizia que era possível uma ciência (e conseqüentemente, uma tecnologia) do comportamento humano. Querendo ou não, estamos sujeitos a agências controladoras e, ao estudar formas de controle, podemos encontrar maneiras mais efetivas e éticas de nos relacionarmos com tais agentes.

O pensamento defendido por Skinner denomina-se Behaviorismo Radical. Suas idéias, pelo caráter pragmático e científico, são freqüentemente alvo de críticas e interpretações errôneas.

Basicamente, o autor coloca que os nossos comportamentos são selecionados pelo ambiente de forma semelhante ao que ocorreu durante o processo evolutivo das espécies. Por isso, as causas do nosso comportamento estão na nossa relação com o ambiente externo, naquilo que denomina-se contingências ambientais. Cada uma de nossas ações é explicada pela nossa história de vida, e por como elas foram “selecionadas” pelo ambiente no passado.

Com isso, o significado de nossas ações não está nelas mesmas, e sim nas contingências nas quais elas ocorreram durante a nossa vida. Em “O Comportamento Verbal”, Skinner traça uma perspectiva interessantíssima e também bastante contestada sobre a aquisição e manutenção do comportamento verbal.

Ao desqualificar a Teoria da Comunicação, para a qual ocorre uma codificação de um significado que é trasmitido e decodificado pelo receptor, Skinner afirma que um significado não existe por si só; cada pessoa “dá” um significado a cada estímulo de acordo com a sua história de vida.

Entende-se por “reforço”a conseqüência ambiental que tende a aumentar a freqüência de um comportamento. Geralmente são conseqüências positivas ou agradáveis ao nosso comportamento. Portanto, ele define o comportamento verbal como aquele que é emitido por uma pessoa mas só pode ser reforçado pelo comportamento de outra pessoa. Por exemplo, se eu peço a alguém que acenda a luz, meu comportamento será reforçado pelo fato da outra pessoa acender a luz, caracterizando minha ação como verbal.

Essa brevíssima, e até certo ponto tosca, introdução foi necessária para permitir a compreensão de uma idéia relacionada à fotografia, especialmente quando a usamos como uma forma de “linguagem”. De acordo com o pensamento behaviorista, uma descrição mais interessante seria a da fotografia como comportamento verbal.

Na verdade isso envolveria não apenas um comportamento, mas vários, desde fazer a foto até a revelação, impressão e apresentação. Quando um fotógrafo publica ou expõe uma foto, ele está se comportamento verbalmente, pois a exposição implica necessariamente num tipo de efeito desejado sobre o ouvinte, ou, nesse caso, espectador. Quando o fotógrafo tenta “desenvolver uma linguagem”, ele está, na verdade, buscando formas efetivas de provocar um determinado efeito sobre o espectador, mesmo que esse espectador seja ele mesmo. Cabe aqui ressaltar que há uma discussão sobre a possibilidade de falante e ouvinte serem a mesma pessoa — eu considero que sim.

Quando se coloca uma foto na internet, isso é feito em função dos outros. O fotógrafo pode ser reforçado pela admiração dos outros ou por provocar uma reação específica (o que comumente se chama de transmitir uma mensagem).

O que considero relevante para a fotografia, então, é interessante pensar nos porquês do nosso comportamento em termos behavioristas. Primeiro, para quem fazemos nossas fotos, ou seja, quem pode reforçar nosso comportamento de fotografar e expor as foto? Segundo, que tipo de resposta seria a mais reforçadora para nós? E terceiro, como posso modificar meu comportamento futuramente para que a resposta dos outros (ou de mim mesmo) seja mais reforçadora para mim?

Pretendo escrever mais associando o behaviorismo à fotografia. Espero em próximos textos me aprofundar mais em outras questões que podem ser melhor esclarecidas. Por enquanto, deixo duas referências sobre o assunto:

Skinner, B. F. (1978). O comportamento verbal. São Paulo: Cultrix.
Skinner, B. F. (1982). Sobre o behaviosmo. São Paulo: Cultrix.

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