A outra história da evolução das câmeras

A fotografia revolucionou a sociedade desde o momento em que foi inventada. Ao possibilitar o registro estático de cenas reais, permitiu a todos reter memórias de lugares, pessoas e eventos. A invenção da câmera tornou viável a realização dessa tarefa quase mágica que, antes disso, ficava apenas no imaginário. Vejamos como esse instrumento evoluiu, desde sua invenção até hoje, com destaque para os avanços tecnológicos envolvidos.

Câmeras arcaicas

Quando a fotografia foi inventada, em meados do século XIX, só existiam câmeras digitais. Havia uma infinidade de modelos, desde as pequenas e práticas até os modelos profissionais, com lentes intercambiáveis e sensores de altíssima resolução.

No entanto, as câmeras digitais enfrentavam várias dificuldades que impediram a sua popularização plena. Cerca de vinte anos depois do seu surgimento, foram criadas as câmeras de filme. Os anúncios não deixavam dúvidas sobre as vantagens: “não é preciso computador para processar as fotos”, “negativos não são apagáveis com um botão”. As câmeras de filme, também chamadas de analógicas, impulsionaram a popularização da fotografia. Os consumidores ficaram especialmente animados com o fato de poderem levar os filmes ao laboratório e sair com fotos em papel, uma grande novidade para a época. Antes as fotografias eram vistas apenas em telas de computadores e redes sociais.

Máquinas mecânicas deram um basta à eletrônica

Ainda havia, no entanto, espaço para evolução. Toda a parte eletrônica das máquinas fotográficas estava sujeita a quebras e à dependência de baterias. A indústria respondeu com a criação de câmeras mecânicas, que usavam baterias apenas para o fotômetro e tinham uma incrível durabilidade, chegando a funcionar por décadas sem precisar de revisão ou consertos. Outro avanço que surgiu com as câmeras mecânicas foram as lentes de foco manual. “Agora você escolhe onde quer o foco”, dizia um anúncio da Cankon, fabricante da época. A concorrente, Olymtax, também entrou na onda: “chega de confiar em chips: o sistema de foco mais avançado é o seu olho”.

O sucesso foi instantâneo, e as fabricantes tiveram um aumento estrondoso nas vendas. Pouco tempo depois, houve uma grande mudança na fotografia. As fábricas, através de pesquisas de mercado, verificaram que os consumidores se confundiam com as cores. Nasceu aí o filme preto e branco, tal qual conhecemos hoje. “Cinza é fashion”, dizia a propaganda de lançamento da Fujidak, líder mundial em filmes fotográficos.

Câmera recente: design minimalista

As câmeras, no entanto, ainda eram muito pequenas e portáteis. Fáceis de se perder e de serem roubadas, com o tempo elas se foram substituídas por um formato maior. Com negativos com área mais ampla, elas também proporcionavam fotografias de mais qualidade, segundo analistas. Além disso, havia apenas um modelo disponível, o que eliminou a indecisão na hora de fazer a compra, de acordo com o fabricante. Os laboratórios pararam de revelar as fotos em uma hora. Agora, era necessário enviar todas as câmeras para a matriz, que tirava o filme da máquina, processava as fotos e devolvia as câmeras já com um filme novo. Acabava, assim, o problema dos negativos queimados quando o filme não era manuseado corretamente.

Mais recentemente, passamos pela invenção de câmeras ainda maiores, compostas por foles e lentes mais simples. Essas câmeras eram operadas com negativos sendo aplicados em chapas de vidro e outros materiais. Uma vez que esses negativos tem uma sensibilidade baixa à luz (mais uma conquista da indústria fotográfica), o fotógrafo pode ficar por vários minutos contemplando a cena enquanto o filme é sensibilizado. No caso de retratos, a pessoa fotografada necessariamente tem que ficar imóvel um longo tempo, o que permite a ela um momento único de reflexão sobre a existência, especialmente ao usar uma espécie de cabide sob a roupa para manter a posição. Críticos argumentam que agora é preciso comprar uma caminhonete para levar o equipamento, mas as vendas recorde de automóveis com caçambas mostram que os entusiastas não estão nem aí. Segundo os gurus do marketing, esse é o estado da arte da evolução da câmera fotográfica.

Parece difícil imaginar para onde iremos a partir daqui, após mais de 150 anos de incontestável evolução. Mas obtivemos de um alto executivo da Vermeer Inc. a notícia de um projeto sendo desenvolvido que pode revolucionar mais uma vez a fotografia: a camera obscura. Segundo ele, a ideia é construir uma caixa com lente e espelho que projeta a imagem sobre um vidro despolido. O operador pode sobrepor o vidro com uma folha de papel e, com o uso de lápis e tinta, traçar ele mesmo a imagem, com o próprio punho. Nada mais de depender de filmes fotográficos. Parece bom demais para ser verdade, mas o diagrama ao lado confirma que o modelo está de fato sendo desenvolvido.

O protótipo da camera obscura: revolução?

“Ainda é apenas um conceito”, disse o executivo. “Provavelmente precisaremos de 10 a 20 anos para que esse produto se torne comum nas prateleiras. Mas acreditamos que levará a criatividade do fotógrafo profissional ou amador a um nível quase infinito.” É esperar para ver e preparar o bolso. Segundo a nossa fonte, a camera obscura não será vendida por menos de 5 mil dólares.

Créditos das fotos: John Krats e The Sussman.

Um comentário sobre “A outra história da evolução das câmeras

  1. Rodrigo, esse texto faz pensar. Pensar se o que nos é vendido como evolução é realmente evolução. Um discurso publicitário muda tudo, e seu texto prova isso.

    Tentar fazer os outros acreditarem que um produto é bom é bem mais fácil do que criar um produto bom.

    Há um outro ponto que seu texto desperta como discussão, que é o (velhíssimo) fato de que quem faz a foto é o fotógrafo e não a câmera.

    Apesar de que a camara obscura já é apelação! rs

    Belo texto, sou teu fã.

  2. Best. Post. Ever. [2]

    Eu já estava passando os olhos por alto, entre as dezenas de atualizações do meu GReader (cuja leitura está atrasadíssima), quando a frase “só existiam câmeras digitais” me prendeu.

    Excelente exercício de desprendimento das convicções e dos equipamentos…

  3. Muito bacana gostei muito, sou estudande de Comun. Social em habilitação em Publicidade e propaganda e quero seguir esse caminho da fotografia parabéns pelo site …

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