A Pose

Existe uma certa dicotomia quando o assunto fotografado é um ser humano: de um lado, as fotografias posadas, com plena consciência da câmera por parte da pessoa fotografada e, de outro as fotos “espontâneas”, muitas vezes tiradas com lentes tele sem que a pessoa sequer se dê conta da presença do fotógrafo.

Não vou entrar na questão ética (ou até legal) em relação à tomada de fotos à distância e direito de imagem. A questão da “pose” me interessa por ilustrar bem as diferentes bases epistemiológicas da fotografia condensadas por Phillipe Dubois no primeiro dapítulo de “O Ato Fotográfico”. Cada uma dessas bases teve maior prevalência em um determinado período histórico: a primeira, no final do século XIX e começo do XX; a segunda, na maior parte do século XX e a terceira começou a tomar forma na segunda metade do século passado.

Dubois coloca que num primeiro momento, a fotografia era vista como ícone, ou seja, representação verossímil do real, na qual havia apenas uma impressão neutra daquilo que era focalizado. O segundo momento, de símbolo, descontriuiu a ilusão do realismo da fotografia afirmando que toda foto passava por uma série de códigos (incluindo a visão pessoal e cultural do fotógrafo) e por isso, tinha que ser vista como um interpretação do real. O terceiro e último momento, de índice, reconhece a indissociação da fotografia com o real, mas a coloca como um traço do mesmo, na medida em que atesta a existência do que é fotografado e nada mais.

A pose na fotografia serve especificamente ao segundo modelo, no qual a fotografia é interpretação: por conta disso, os fotógrafos usam de artifícios para tornar a foto mais real do que a própria realidade. A pessoa, ao posar, caricaturiza-se e mostra-se como não é, para que seja o mais parecida possível consigo mesma. A exacebação do real típica dessa concepção ainda é muito utilizada na fição, nos filmes e especialmente na propaganda.

Se pensarmos de acordo com o terceiro modelo, não faz diferença se a foto é posada ou não: a única coisa que a fotografia faz é atestar a existência de algo (ela diz “isto-foi”, segundo Barthes). Qualquer outra significação depende do observador.

Com isso, usar teleobjetivas para fotografar à distância, por achar que a pessoa de forma “natural” e inconsciente da câmera é mais autêntica, não faz sentido. A fração momentânea da vida “espontânea” da pessoa não diz mais do que uma fotografia posada, em que a pessoa se coloca como ela é. Essa atitude, no entando, pode nos dizer muito sobre a dificuldade expressa pelo uso de uma lente que permite ver de perto sem se aproximar.

Apesar disso, eu acredito que se possa capturar algo mais do que um breve momento numa fotografia. Mas para isso, é preciso que haja uma ligação verdadeira com quem se está fotografando, intimidade e cumplicidade de maneira que a pessoa possa se mostrar. A fotografia geralmente necessita que se veja muito bem antes, e que se fotografe depois. Como ilustração, uma fala de Kafka sobre seu ceticismo quanto a essa possibilidade:

“A fotografia concentra seu olhar sobre o superficial. Desse modo obscurece a vida secreta que brilha através dos contornos das coisas num jogo de luz e sombra. Não se pode captar isso, nem mesmo com o auxílio das lentes mais poderosas. Devemos nos aproximar dessa vida interior pé ante pé…”

Antes de tirar foto que ilustra esse texto, pedi a meu pai que posasse para a câmera. Ele se preparou e transformou-se em si mesmo, como sempre fazemos ante uma objetiva.

Bibliografia:
Barthes, R. (1980). A Câmara Clara. Lisboa: Edições 70.
Dubois, P. (1994). O Ato Fotográfico. Campinas: Papirus.
Sontag, S. (1981). Sobre Fotografia. Rio de Janeiro: Arbor.

Um comentário sobre “A Pose

  1. ? isso mesmo, Rodrigo!

    N?o s? a pessoa fotografada deixa transparecer sua ess?ncia (mesmo que queira justamente o contr?rio), mas tamb?m o fot?grafo. Acho que ? de Diane Arbus a afirma??o de que todo retrato ? na verdade um autoretrato…

    Um abra?o.

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