Ainda sobre aparelhos e programas

A fotografia, para se estabelecer como forma de expressão e arte, precisa constantemente lidar com uma de suas características básicas: a de ser o produto de um aparelho. Este é um problema complexo, pois a maneira de funcionar do aparelho (ou o seu programa) delimita as possibilidades de criação. Ora, uma atividade artística, para ser plena, não deve encontrar na sua feitura limites tão fechados. Especialmente se considerarmos que os limites inscritos nas câmaras fotográficas são determinados por interesses econômicos e mercadológicos — nada mais distante do processo criativo.

Um caminho natural deste raciocínio seria discutir — como já fez Flusser — as formas de subjugar esses limites, através de uma atuação experimental e subversiva em relação ao programa. No entanto, olhando para o panorama atual da fotografia amadora, após a popularização do sistema digital, percebemos que ainda estamos longe de poder discutir o uso subversivo do aparelho. Isto porque o fotógrafo amador não chega nem a utilizar todas as possibilidades do programa — que dirá ir além dele. A produção média é tão homogênea que o uso das possibilidades inscritas no programa e que são menos comumente exploradas já quase configura um uso subversivo.

Tryptique à Grande vitesse
© Cath’

A maior parte dos fotógrafos digitais faz fotos em formato jpeg e não a modificam após sua produção na câmera. Alguns até dizem que não foi alterada com certo orgulho, como se isso fosse um atestado de competência do fotógrafo. No entanto, ignorar as possibilidades criativas (que ainda estão dentro das limitações) e contentar-se com a péssima qualidade visual de arquivos digitais inalterados — ou com alterações mínimas feitas na própria câmera — apenas denota falta de envolvimento necessário para criar uma produção de qualidade.

Afinal de contas, esse tipo de foto, pensando exclusivamente nos seus aspectos técnicos, é uma gota no oceano de fotos digitais feitas aos milhares a cada momento. A fotografia digital trouxe uma homogeneização gigantesca. Todas as fotos se parecem.

Outros amadores, entendendo a necessidade de melhora na qualidade e criação de variações dos aspectos visuais nas suas fotos, usam os programas de edição de imagem como o Photoshop e o Gimp. Esse procedimento multiplica as possibilidades criativas, ainda que essas ferramentas também tenham as suas limitações, por terem aplicações delimitadas, apesar de extensas. No entanto, a mesma homogeneização acontece aqui, de forma diferente: há uma valorização de alguns padrões estéticos, oriundos especialmente da imagem pública, seja ela publicitária, cinematográfica ou televisiva. O que ocorre é que se almeja constantemente esse mesmo referencial, e o uso dos softwares de edição também é pouco criativo, já que eles, na maioria dos casos, servem apenas para produzir imagens limpas, nítidas, contrastadas e saturadas. Ou seja, é um uso bitolado e mecânico, que também não abrange todas as possibilidades do programa.

Se entramos em uma galeria de fotos online e procuramos pelas imagens que mais agradam os visitantes, percebemos que elas obedecem esse paradigma estético vigente: são basicamente de leitura fácil, com composições simples e elementos destacados, com a nitidez, contraste e saturação citados acima. Raramente há, entre essas imagens, fotos cujo conteúdo se sobressaia aos aspectos estéticos. Há muito impacto visual e pouca narrativa, pouca elaboração, pouca construção.

Mas não nos afastemos da questão técnica. O que defendo aqui é que, se vamos nos envolver de tal forma com o aparelho, que ao menos o exploremos em todas as suas possibilidades. Sem pensar em trocar de câmera: quando se acha que precisa de uma câmera nova é porque a sua câmera velha está lhe impondo um uso mais criativo. Troque de câmera e você perderá a oportunidade de desenvolver sua criatividade e acabará fazendo as mesmas fotos que fazia antes, que o levará inevitavelmente a uma nova frustração no futuro.

Exploremos as lentes de plástico dos celulares, a profundidade de campo das compactas, as cores do filme, as objetivas das reflex, os grandes negativos do médio formato e além. Não há certo ou errado. Não se preocupe com um padrão estético engessado: se diferencie. Ouse no Photoshop: simule viragens, sobreponha fotos, inverta cores. O recado é um só: pare com tudo que está fazendo e comece a criar.

Um comentário sobre “Ainda sobre aparelhos e programas

  1. Essa s?rie est? fant?stica, Rodrigo. Engra?ado que de tempos em tempos minha cabe?a volta ?s mesmas quest?es e come?o a achar que realmente preciso urgentemente de lentes melhores para fazer boas fotos, mas por sorte sempre tem algu?m de bom senso para nos lembrar que a fotografia vai muuuito al?m dos equipamentos e que a limita??o ? um dos grandes motores da criatividade.
    Abra?os!

  2. Rodrigo estou gostando bastante dessa s?rie de textos. Gostaria de tecer longos coment?rios. (meu mal ao escrever). Vc vai postar esse texto no digiforum?

  3. Caro Rodrigo,

    Concordo com voc?, com Flusser e com todas as pessoas de bom senso que sabem n?o haver certo ou errado em termos de cria??o. O problema, na minha opini?o, ? outro: criar ? muito dif?cil! Tenho visto grandes disparates, coisas absurdas tidas ? conta de obras da mais genu?na criatividade! E estou falando de artistas e fot?grafos renomados…

    Acredito que muitos de n?s t?m se deixado empolgar pela “necessidade” de criar, de realizar algo diferente, e essa busca desenfreada pelo ineditismo muitas vezes soa como algo burlesco. Tenho refletido sobre isso e me perguntado: ser? que no ?mbito do fot?grafo amador comum (e n?o estou me referindo ? grande massa pasteurizada que voc? mencionou) a busca por desenvolver uma sensibilidade capaz de reconhecer, apreciar e produzir um material que ele considere como belo n?o seria por si s? um aspecto t?o merit?rio quanto o da cria??o? Ou ser? que essa busca ? apenas um primeiro est?gio rumo ? verdadeira capacidade criativa?

    N?o sei se aqui ? o ambiente mais adequado para essa conversa, mas gostaria muito de saber o que pensa a respeito.

    Um abra?o.

  4. Caro Eric,

    Antes de tudo, obrigado pela participa??o. Este ? o local adequado para esse tipo de conversa, pois fica vis?vel a todos que quiserem acompanhar e complementa muito bem o artigo inicial. At? porque a sua quest?o ? fundamental.

    O pr?prio Flusser indica que a fotografia experimental, aquela que subverte o funcionamento do aparelho, seria a sa?da para uma utiliza??o criativa por parte do operador. E por isso mesmo ele ? criticado: ser? que s? esse tipo de produ??o ? v?lida? Ora, ainda n?o se chegou nem perto de atingir os limites das possibilidades das imagens t?cnicas, e talvez nunca se chegue.

    Minha opini?o ? que o bom trabalho n?o ? necessariamente o de vanguarda, o inovador, o experimental. At? porque a experimenta??o vazia que voc? aponta ? uma produ??o t?o dependente do aparelho como o uso subserviente. Acredito que h? elementos no trabalho fotogr?fico, como a consist?ncia, a qualidade est?tica, a capacidade de impressionar e de se comunicar que s?o mais importantes do que a simples inova??o. Esses elementos podem estar presentes tanto num trabalho inovador como num trabalho “tradicional”.

    Al?m disso, acredito que o artista deve confiar na sua pr?pria trajet?ria. N?o ? necess?rio se for?ar a um ou outro caminho. ? a explora??o do pr?prio trabalho, com consci?ncia de seus motivos que lhe dar? condi??es de criar de fato, ao utilizar a sua arte como uma esp?cie de espelho, uma ferramenta de conhecimento de si mesmo e do mundo. Na minha vis?o, um trabalho completo passa por esses pontos.

    O Flusser ? um ?timo contraponto ? tend?ncia de sobrevaloriza??o da m?quina e do consumo que se v? hoje. Mas isso n?o quer dizer que suas hip?teses tenham uma validade universal.

    Grande abra?o,
    Rodrigo

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