Duas fotografias

Recentemente, houve no Digiforum uma série de debates sobre a questão da fotografia digital e analógica. Como sempre, há os defensores de ambos os lados. O grande problema, no entanto, é o fato das pessoas pensarem em termos de “ou” e não percebem que podem pensar em “e”. A maior parte dos fotógrafos que usa ou usou filme também usa digital. Por outro lado, a maior parte dos amadores que começou com o sistema digital não sabem o que é fotografia com filme. Como não há paradigmas nesse assunto, podemos apenas discutir alguns pontos à luz de um ponto de vista específico. Portanto, falo aqui um pouco sobre minhas escolhas ao fazer fotos.

Eu uso tanto digital quanto filme. E o processo criativo envolvido em cada uma é tão diverso que posso dizer que são duas fotografias. Ao contrário do que se fala muito, não é a praticidade ou a velocidade que me levam ao digital, nem uma espécie de romantismo saudosista que me leva ao filme. É apenas uma questão de resultado final, resultado esse que influencia o processo como um todo.

Com o filme, há maior elaboração antes de fazer a foto. Primeiro com a escolha do filme: se escolho um filme preto-e-branco, já passo a ver as cenas dessa forma. Há coisas que funcionam melhor em PB e outras que simplesmente não funcionam. Ou quando se usa um cromo, há uma diferença significativa na forma de registrar as cores. Por isso, há um ver com os “olhos” do filme que se está usando. Pode-se ainda puxar o filme, pensar em duplas exposições, utilizar filtros. Ou seja, há toda uma construção enviesada para o antes e pouca alteração depois que a foto é feita.

Alguns exemplos de fotos que fiz com filme estão na Galeria do Câmara Obscura, álbum Descontruções Urbanas.

No digital é o contrário. Para mim, a captura digital é um ponto de partida, às vezes de um longo caminho. Faço a foto sabendo que posso cortá-la, redimensioná-la, esticá-la para cá ou pra lá, alterar totalmente as cores e a perspectiva. A única coisa que faço antes de apertar o disparador é fazer um “esboço visual” e analisando se uma determinada foto pode me levar até onde eu quero chegar. Fotografo em RAW, cutuco sem dó as curvas e balanceio as cores até onde for necessário. Adoro esse processo. A imagem, tal como saiu da câmera, já foi há muito esquecida, e deu lugar pra sua irmã mais nova. Um exemplo é a seguinte foto, nas versões original e modificada.

dscn4403o.jpg dscn4403m.jpg

Com isso, minha escolha por um sistema e outro não se baseia nas características que cada formato impõem ao ato fotográfico em si, e sim na visualização de uma possibilidade e na análise de qual programa tem mais chances de me dar aquele resultado. Pensar em termos de “ou” tem como único resultado a própria limitação.

Um comentário sobre “Duas fotografias

  1. Muito bom, nem imaginava que essa foto (j? conhecida de outros carnavais) tivesse sa?do da c?mera daquele jeito… Tamb?m adoro transformar a foto depois e com o filme, me encantar com aquilo que j? chega pronto. O ?nico ponto em que ainda falho ? explorar melhor essas possibilidades do ‘antes’.
    Abra?os!

  2. Pois ?, Lilian, essa ? uma das fotos que mais alterei, pois queria que fosse mais forte, causasse mais impacto por conta daquele objetivo que t?nhamos. Na verdade, estou pensando em fazer uma impress?o em gr?fica em 60×40 mais ou menos para ver como fica.

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