Elitização e preconceito entre fotógrafos e amadores

Gilson Lorenti lançou em seu blog, no Meio Bit, um Manifesto Contra a Elitização da Fotografia. Ele conta que, nas discussões sobre a formação de um fotoclube, houve preconceito contra pessoas que só fotografam com uma pequena compacta, o que o motivou a escrever o texto. Ele defende que não importa a câmera utilizada, e sim o talento que se tem para produzir arte. Até aí tudo bem. Essa é uma opinião coerente com vários textos que já publiquei aqui, como o Porque você não precisa trocar sua câmera.

Lorenti, no entanto, escorrega feio, destilando no seu artigo o mesmo preconceito e elitização que critica. Num trecho, afirma:

lembrei de uma verdade absoluta: fotógrafos são as pessoas mais preconceituosas, orgulhosas e tapadas do mundo

É verdade que alguns fotógrafos de fato torcem o nariz quando têm contato com pessoas que fotografam com câmeras simples. Especialmente se, com câmeras simples, consegue-se melhores resultados do que eles com máquinas caras. Isso torna evidente que a variável equipamento tem de fato um peso menor do que outros aspectos do ato fotográfico. Agora, classificar todos os praticantes de uma atividade, seja profissional ou amadora, como pessoas preconceituosas é simplesmente… preconceito. Já em outra parte do texto, o autor coloca:

Impossível dizer que o estudo não é necessário, mas a sensibilidade e olhar fotográfico não se aprendem. Você nasce com ele.

Esta é uma frase profundamente elitista. Afirmar que as potencialidades humanas são inatas é afirmar que quem faz bem alguma coisa não se esforçou pra isso, apenas “recebeu um dom” e que aqueles que não fazem bem alguma coisa nem devem tentar, pois não foram agraciados com o talento. Além de ser questionável moralmente, é uma concepção baseada no senso comum que não tem força científica. Na pior das hipóteses, ainda que certas características humanas fossem inatas, certamente elas são perfeitamente passíveis de alteração pelo ambiente em que vivem. Já fui mais a fundo nesse ponto no texto Sobre talento e criatividade.

O texto de Lorenti tem uma boa intenção: defender a popularização da fotografia e o acesso de todas as pessoas à possibilidade de fazer arte. Isso de fato incomoda muitos elitistas. No entanto, o texto é falho especialmente ao defender que não, nem todas as pessoas podem fazer arte. Só aquelas que nasceram com o olhar fotográfico. Felizmente, as pessoas de fato talentosas geralmente são aquelas que não acreditam em limitações e vão atrás daquilo que outras pessoas dizem que elas não podem fazer.

Um comentário sobre “Elitização e preconceito entre fotógrafos e amadores

  1. Bem, você não foi o primeiro a ter essa visão. Na lista fotoclic o assunto está indo nessa direção também. Bem, quando falo que fotógrafos são preconceituosos, falo com conhecimento de causa. Estou na luta a 14 anos e já encontrei de tudo pela frente e continuo afirmando que nossa classe é preconceituosa. Basta ir fotografar um casamento em um cartório (lugar com muitos fotógrafos) que você vai sentir o drama. Dependendo do equipamento o pessoal nem te cumprimenta. Claro que generalizei, mas no meio profissional é cada um por si e Deus por todos.
    A questão do olhar também não foi algo elitista. Impossível não admitir que pessoas nascem com dons e conhecimentos natos. Pessoas que conseguem reproduzir música apenas de ouvido ou uma aptidão para o desenho. Para quem não nasceu com isso resta ralar muito e se apegar a técnica para poder entrar no mercado. Se você ler todos os comentários do texto vai ver que em vários momentos eu defendi que o acesso a arte tem que ser para todas as pessoas, e não só para os ditos profissionais. Fazer e apreciar arte depende de sensibilidade e infelizmente, é difícil ensinar isso. Você pode ensinar a técnica, fazer a pessoa reconhecer os estilos, passar o valor cultural da obra para o indivíduo e fazê-lo respeitar toda a riqueza da produção intelectual humana. Mas, ai chega um indivíduo que nunca estudou como você e olha uma obra de Michelangelo e simplesmente se emociona e chora. Claro que vou olhar para aquilo e me sentir mal, pois passei anos estudando e nunca me emocionei dessa maneira ao olhar o mesmo quadro. É disso que estou falando. Dou cursos de fotografia a 10 anos e sempre me deparo com pessoas sem conhecimento nenhum e que produzem imagens espetaculares. Como explicar isso?? Antes que me perguntem se me acho uma dessas pessoas iluminadas eu digo que não. Adoro fotografia e transformei essa paixão em profissão, mas conheço muito de técnica, enquadramento e tudo o que mais for necessário, mas raramente produzo uma imagem que possa ser classificada como inspiradora. Sabe aquela foto bonitinha que você logo esquece?? Então, a maioria de nós estamos nesse barco.

  2. Prezado Gilson,

    Obrigado por dar uma passada por aqui e deixar sua opinião. Não vou discutir a questão do mercado, pois se você está dentro dele o conhece melhor do que eu.

    Também não duvido que pessoas “sem conhecimento” produzam belas imagens. O problema é que há um erro metodológico quando você atribui isso a um dom inato. Você está atropelando décadas de aprendizado e história de vida que, mesmo que não diretamente, podem ter contribuído para que a pessoa desenvolvesse uma certa sensibilidade, que só naquele momento foi aplicada na fotografia. Para que pudéssemos afimar categoricamente que uma característica é simplesmente inata, precisaríamos conhecer a fundo toda a vida da pessoa e descartar todas as influências ambientais possíveis. Complicado, não é?

    O fato de algumas pessoas terem o olhar fotográfico e outras não pode estar muito mais relacionado às experiências que a pessoa teve desde a infância do que a algo que nasceu com elas. É importante olhar para todos os possíveis determinantes, em vez de recorrer à explicação do dom toda vez que não conseguimos ver, de cara, onde está a origem do talento de uma pessoa.

    Abraços.

  3. Vilém Flusser afirma que “o homem, por algum instinto inato, não sabe fazer ferramentas e usá-las”, ou seja, é necessário que aprendam através da experiência (do ensaio e do erro). Portanto, afirmar que o “olhar fotográfico” é ontológico me parece um tanto quanto “manipulador” ou “manipulado”.
    Alfonso López Quintás observa que “a manipulação nada mais é do que uma forma sutil de enganar para conseguir o que se deseja sem o uso da força física”.
    Espero ter contribuído com a discussão.
    http://www.caixapreta.net

  4. Gilson;

    Como vai?

    Na lista Fotoclic a mensagem nessa linha é minha. Em que pese seu artigo, bem escrito, fluente, e com um ponto de vista sobre equipamentos que compartilho, como já disse lá, há na assunção do dom uma premissa a-científica. E, pior ainda, que não é uma premissa sequer de constatação prática, pois quando os exemplos são evocados, eles são evocados sem o a vida-processo daquela pessoa que aparentemente possui o dom. Fosse examinada a vida-processo encontraríamos os fatores e a CONSTRUÇÃO do aparente dom.

    Veja que educação não significa exclusivamente educação formal, mas o conjunto de pressões ambientais às quais o organismo se adapta, e há estímulos poderosos da ordem da identificação emocional que criam quase-obcessões, essas sim responsáveis por desenvolvimentos assimétricos (talentos, se quiser chamar assim) do indivíduo. Normalmente quem supõe inatismos tem uma visão muito empobrecida do que seja educação, reduzindo-a à educação formal daquele assunto.

    Veja, só podemos falar em algo genético se minimamente pudermos apontar o elemento genético que produz a coisa. Sem isso trata-se de uma suposição sem nenhuma cadeia causal. É apenas uma preferência de crença. Eu lhe pergunto: Quais são os genes envolvidos no “olhar fotográfico”? Nem você, nem ninguém saberia responder isso.

    Por outro lado, a dinâmica de plasticidade cerebral, a dinâmica de aquisição das faculdades psíquicas, ela mesma quando estudada dá luz a isso em tese oposta à sua.

    Em um curso que fiz de neurociência com o Renato Sabbatini, um dos grandes da área do Brasil, ele relata mapeamentos cerebrais com motoristas de taxi londrinos, e a constatação deles terem áreas cerebrais responsáveis pela localização espacial maiores que a da média dos cobaias de um grupo de controle. Como você bem sabe, ser motorista de taxi não é um dom, é uma solução de vida. Contudo, a prática de orientar-se na cidade faz com que, devido à plasticidade cerebral, aquilo se desenvolva assumindo um nível de desempenho que poderia, visto de fora, ser considerado análogo a um dom.

    Existe um princípio na ciência chamado navalha de Okcan. Ele estipula mais ou menos que entre duas explicações para algo, devemos preferir a mais simples, significando a mais simples a menos dependente de hipóteses não testadas.

    Não existe teste algum sobre dom e inatismo. Só uma persistente crença, que provém da idéia romântica de arte e da idéia romântica do artista como um predestinado.

    Assim, seu artigo é elitista, pois crê haver uma elite de possuidores do olhar fotográfico. É elitista porque separa entre os homens alguns eleitos. E, independentemente do julgamento da uma igualdade ideal entre os homens que de fato é impossível, esta suposição não tem bases experimentais. Tem apenas exemplos mal estudados.

    Grande abraço,
    Ivan

  5. Só passei pra dizer que além da nova ‘cara’ o Câmara também está mais dinâmico e trazendo ‘polêmicas’ à tona, e isso é muito legal e ajuda a dar vivacidade ao site! :o)

  6. Uma boa intenção vale mais que um texto bem redigido e cheio de aspectos formais baseados em cientificidade. Não há como definir uma boa intenção. Elas apenas são compreendidas por quem às aceitam independentemente de ver uma verdade própria ofendida. Quando se está muito mais preocupado em salvar do que opinar, poréns são desnecessários. Parabéns Gilson Lorenti!

  7. Célio;
    Já vi que você não está muito acustumado com controvérsias. Quem está acostumado com controvérsias não recorre a essas coisas impalpáveis como boa intenção, etc. Aliás, eu acho que boa intenção é a minha em lutar contra esse conceito profundamente paralisante que é o dom inato. Essa é uma boa luta, um bom combate, uma boa intenção, pois propõe a todos que sua dedicação, esforço estudo, isto é, coisas que depende da vontade e da ação, são determinantes, e ninguém está condenado por um dom ou por sua ausência.
    Quando a cientificidade, bem, a ciência é um bom patamar para pensar as coisas. E contra um bom argumento deve ser oferecido outro melhor, e não somente uma manifestação de preferência.

  8. Em primeiro lugar, parabéns pelo espaço. Faz tempo que eu procuro um site ou fórum fotográfico com nível tão bom.
    Quanto a questão abordada, concordo com Ivan e Rodrigo. Talvez nem todos desenvolvam a mesma capacidade para fotografia, mas também acredito que a questão é ambiental.
    Digo isso, pois eu mesmo comecei a fotografar por acidente. Comecei com uma Sony compacta de preço popular mas que me permitia alguns ajustes de velocidade e abertura. Como todo bom apaixonado por equipamentos eletrônicos, resolvi explorar aqueles recursos, saber para que serviam. Li muitos tutoriais, muitas artigos explicativos, até que tive meu primeiro contato com fotógrafos, através do digiforum. Descobri que aquele pequeno aparelho poderia se tornar uma ferramenta para me expressar artisticamente. Porém, descobri algumas “barreiras ambientais” desestimulantes. A principal foi exatamente o preconceito de ALGUNS “fotógrafos”. Coloquei entre aspas pois é exatamente assim que considero esse pessoal. Desse pessoal, eu nunca tinha visto nada que fosse realmente impressionante, algo que justificasse a imensa soberba com a qual vi muitos tratarem pessoas como eu. Muitos não sabem nem mesmo o significado da palavra arte. Dizem amar a comunicação visual mas só sabem quem são Leonardo, Michelangelo, Donatelo e Rafael por causa das Tartarugas Ninjas. São na maioria pessoal que trabalha com informática e viram na revolução digital uma forma de se incluírem no meio. Tratam o equipamento fotográfico como tratam seus PCs e Macs.
    E talvez seja exatamente esse o ponto. Como bons trabalhadores da área de tecnologia, conhecem muito sobre equipamentos, mas nada sobre arte. Sabem que tem muita gente com uma compactazinha na mão que pode fazer muito mais do que seus maravilhosos bokehs oriundos de suas caríssimas lentes f/2,8. E isso tudo, pelo simples motivo de estudarem arte. Essas pessoas quem mesmo só tendo uma compacta, lêem algo mais que a “Fotogafe Melhor”. E creio que seja isso que faça eles se sentirem ameaçados e reagirem de forma negativa. O que faz reagirem de forma soberba, é a necessidade de auto-firmação. Não vou contar minhas próprias experiências, pois esse não é o foco aqui.
    Mas sobre o que eu escrevi acima, podemos relacionar à figuras que não precisam provar mais nada para ninguém? Podemos mesmo dizer que todos os fotógrafos se comportam da mesma forma? Você mesmo Gilson, que tem a missão tão nobre de ensinar, pode dizer que faz isso pois se julga melhor que seus alunos? Acho que não. Eu mesmo, hoje possuo duas SLRs, uma analógica e uma digital. Mas nunca destratei ninguém e nem selecionei meus pareceiros de atividade pela câmera que utilizavam, mas sim pelo seu caráter e pela sua vontade de aprender e de fazer
    Com todo respeito, particularmente acho que toda a generalização é burra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *