Metacontingências Fotográficas

YuRodrigo F. Pereira
Colaborou Ivan de Almeida

Neste texto, quero dar continuidade a uma análise iniciada pelo Ivan no artigo Criação Fotográfica e Comunidades Virtuais Fotográficas. Mais especificamente, gostaria de abordar um ponto específico do texto, em que ele aponta o fato de se criar uma “contingência de reforço” em determinadas comunidades que selecionam apenas um certo tipo de foto. Essa análise pode se beneficiar de um outro conceito da análise do comportamento que se refere justamente a esse tipo de processo cultural, chamado de metacontingência.

Uma contingência é um sistema que envolve um comportamento, o estímulo discriminativo que o possibilita e a conseqüência que esse comportamento recebe do ambiente (no qual estão incluídas as outras pessoas). Na fotografia, se frente a uma determinada cena (o estímulo discriminativo) eu realizar uma série de operações na câmera (a resposta) vou obter uma boa foto (conseqüência). Essa combinação é uma contingência. Através desse modelo, podemos avaliar a ocorrência e determinação de comportamentos individuais isoladamente.

No entanto, quando avançamos às práticas culturais, esse tipo de entendimento não é suficiente. Por isso, recorremos ao conceito de metacontingências, abordado com mais profundidade neste artigo de Todorov e Moreira (2004). De forma resumida, afirma-se que as práticas culturais também são selecionadas ao longo do tempo: diversos comportamentos individuais são incentivados e mantidos, através de rituais e outros dispositivos, em prol de um objetivo comum a longo prazo. Uma comunidade que estoca alimento para o inverno em vez de consumi-lo todo imediatamente está se comportando de acordo com uma metacontingência. Há diversas entidades cuja função é justamente criar e gerir essas formas de controle, como a religião e o governo.

Quando o Ivan diz, em seu artigo, que as comunidades virtuais estabelecem uma contingência de reforço, na verdade essa comunidade estabelece uma metacontingência. As metacontingências têm, como conseqüência final, a manutenção do status quo social, e no caso das comunidades fotográficas e da fotografia isso acontece através do estímulo com conseqüente tendência de perpetuação de uma maneira de fotografar que permaneça dentro das regras aceitáveis para o grupo. É a prática grupal, então, reforçar a produção de clichês e trabalhos de leitura fácil e rechaçar qualquer tipo de foto com cunho subversivo, ou seja, que desafie a ordem social estabelecida. A metacontingência fica mais clara e seus rituais mais marcantes quando uma ameaça desse tipo ocorre.

No entanto, o conceito pode ser aplicado para qualquer grupo e, portanto, para qualquer associação de pessoas que se envolva com a fotografia. Os fotoclubes são outros grupos que podem ser encarados da mesma forma. E, mas uma vez, precisamos começar pelas conseqüências que regem suas práticas grupais. Em alguns, o objetivo final é o aprimoramento da formação dos sócios, que terá reflexo em sua produção. Portanto, todas as suas atividades terão relação direta com essa meta. Em outros, o objetivo é apenas propiciar a possibilidade fazer fotos em grupo, trazendo vantagens que não se teria sozinho, como a segurança para um passeio noturno. Há outros de tipo misto, em que diversas metacontingências competem entre si: há o interesse por passeios, desenvolvimento fotográfico, confraternizações, concursos. Torna-se difícil comportar-se adequadamente quando há tantas possibilidades, o que fatalmente gerará cisões e algumas conseqüências também serão selecionadas pelos indivíduos, fazendo com que algumas metacontingências e, conseqüentemente, as práticas relacionadas a elas, deixem de existir.

Já os fotógrafos que têm seus trabalhos presentes em galerias de arte encontram-se dentro de outra situação. Nesse caso, a metacontingência tem como conseqüência final a manutenção de um ganho financeiro e de uma hierarquia dentro desse contexto. Reforçam-se, então, produções que tenham atributos que as tornem “vendáveis” dentro de um sistema de valor atribuído pelos merchants.

Não é a toa que as produções variem tanto dentro desses grupos: as metacontingências são extremamente diversas. Além disso, muitas vezes o indivíduo que está dentro desses grupos não tem plena consciência dos objetivos e processos que ocorrem dentro dele. Como são todos ambientes de inserção livre, ou seja, a pessoa pode ingressar ou sair a qualquer momento, é fundamental que ela entenda o que está em jogo e quais são as regras envolvidas, sabendo que as regras são ferramentas pelas quais se atingem os objetivos comunitários.

Outro ponto a ser ressaltado é que os processos grupais e culturais não são soberanos em relação às contingências individuais às quais cada membro do grupo está sujeito. Quando esses membros são agentes sociais, ou sejam, são aqueles que podem exercer o controle em nome dos objetivos grupais, a concorrência entre as contingências pode ser grande. Um exemplo é o governante que passa a usar o poder para seu próprio benefício. Nos grupos, como todos podem ser, ao mesmo tempo, agentes sociais, nem sempre fica claro se a atuação está relacionada à metacontingência ou às outras circunstâncias que controlam o comportamento individual. Mesmo o próprio indivíduo pode não ter consciência sobre o que está influenciando a sua atuação.

Portanto, o benefício, para o indivíduo, da inserção nesses grupos depende da clareza sobre o que determina os comportamentos dentro de determinada organização. Participar de uma comunidade real ou virtual pode ser muito positivo caso os objetivos sejam claros, as regras flexíveis e sua função sejam compatíveis com aquilo que é reforçador para o indivíduo. Como essa parece ser uma circunstância nem sempre atingível, torna-se importante enxergar as organizações com olho crítico. É indispensável ter uma reserva de valores individuais para orientar aquilo que se faz, já que, ao entrar em um grupo, sempre se corre o risco de perder a referência e se envolver com objetivos que não são os seus, na mesma medida em que por inconsciência da dinâmica própria de confirmação do grupo passa a aceitar as metacontingências como orientações evidentemente verdadeiras.

Referências
Junqueira, I. A. (2007). Criação fotográfica e comunidades virtuais fotográficas. Fotografia em Palavras. http://br.groups.yahoo.com/group/fotografiaempalavras/
Todorov, J. C., & Moreira, M. (2004). Análise experimental do comportamento e sociedade: Um novo foco de estudo. Psicologia: Reflexão e Crítica, 17 (1), 25-29.

Foto: Yu

Um comentário sobre “Metacontingências Fotográficas

  1. Da primeira vez que li esse texto me pareceu bem complexo, agora relendo percebo que est? bem claro e ligado ao que tem acontecido nas comunidades fotogr?ficas virtuais e f?sicas.

    A? fica clara a fun??o sua, do Ivan, nestes grupos, questionar algumas metaconting?ncias que v?o de encontro ?s suas pr?prias metas e inserir outras que s?o desvalorizadas pelo grupo. No seu caso, Rodrigo, um exemplo muito claro foi ter criado o t?pico sobre fotografar com filme num f?rum que em anos de exist?ncia nunca tinha tido nada nesse sentido. Fico imaginando se eu tivesse entrado no Digi onde aprendi praticamente tudo e o que me diziam eu tomava como certo, se n?o tivesse tomado contato com seus questionamentos, os do Ken Rockwell, rsrsss, ser? que hoje n?o teria tomado um caminho completamente diferente deixando que as metaconting?ncias do grupo ditassem as minhas pr?prias metas?

    O legal ? termos um espa?o democr?tico apesar das metaconting?ncias onde ainda exista espa?o para que todos se expressem, at? mesmo as minorias.

    E eu te falei em ser ego?sta, mas mesmo pensando apenas em si ? poss?vel beneficiar outros que desejem seguir seus passos.

  2. Rodrigo, estou lendo todos os textos do Câmara Obscura, desde o primeiro, e este é um dos mais instigantes que eu li até agora. Minha esposa é psicóloga, fã de Skinner, behaviorista radical, e o link que você faz entre esses temas, que eu conheço por “osmose”, e a fotografia é fantástico. Meus parabéns.

  3. Marcius,

    Escrevi esse artigo em 2007 e hoje vejo o quanto ele é hermético por conta dos conceitos da análise do comportamento. Mas é interessante que pessoas com conhecimento na área, como você, possam aproveitá-lo. Obrigado pela visita e pelo comentário.

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