Não me dê ouvidos

Um dos efeitos da revolução nas comunicações que vivemos hoje é que todos podem expressar suas opiniões mais livremente do que nunca e conseguirem diálogo e audiência de pessoas com quem, de outra forma, nunca teriam contato. Isso é um feito extraordinário e a marca da vida contemporânea.

Entretanto, ao mesmo tempo vivemos na era do “ter que”. O imperativo é o modo verbal característico do novo milênio, ordenando que façamos, que ajamos, que compremos. Isso se manifesta de forma muito clara na internet, onde sempre haverá dezenas de pessoas dizendo o que você deve fazer.

Suponha que você queira comprar uma nova câmera, ou fazer um curso de fotografia. Faça essa pergunta online e receberá uma enxurrada de respostas, todas dizendo claramente o que você deve fazer. O problema é que cada uma diz uma coisa, o que mostra que as pessoas não concordam tanto assim com o que é melhor para você. Alguma coisa deve estar errada, então.

John Ryan Brubaker
John Ryan Brubaker

Isso acontece porque temos uma dificuldade muito grande em estabelecer uma relação empática com o outro, ou seja, conseguir se colocar no lugar de outra pessoa. A empatia é uma tarefa difícil quando estamos frente a frente com alguém, o que dirá quando há computadores em rede intermediando essa troca. Consequentemente, quando você coloca um problema desse tipo, como qual câmera comprar, as pessoas responderão de acordo com as suas próprias histórias, e não com uma análise honesta considerando de fato o que é melhor para você. Não podemos culpá-las, no entanto. A empatia é algo que se desenvolve na infância e que precisa de exercício. Muitas vezes simplesmente não se têm condições de fortalecê-la ao longo da vida.

Há também um outro aspecto que dificulta muito a troca de opiniões e a argumentação crítica na net: nós temos um grande prazer em controlar o comportamento dos outros. Adoramos quando as pessoas seguem os nossos conselhos. Há uma satisfação egóica enorme quando falamos a alguém: “faça isso” e a pessoa vai lá e faz. Por isso, quando se fala de fotografia na Internet, é muito comum que a conversa seja esquizofrênica: cada um argumentando a partir da sua própria história, sem conseguir olhar o outro, guiado por essa vontade de controlar o comportamento alheio.

Por isso, quando você fizer esse tipo de pergunta numa rede social ou fórum de discussão, é muito provável que a resposta não seja boa. Mas há, também, o outro lado da moeda: será que é tão difícil tomar decisões sobre uma câmera, um livro ou um curso sem consultar dezenas de desconhecidos? É provável que essas pessoas saibam mais sobre o que é melhor para você do que você mesmo?


Phillip McAllister

A quantidade de informações que temos na Internet é avassaladora. Em muitos casos, no entanto, o que temos são pessoas falando sobre as suas experiências. Isso pode ser muito interessante e informativo, mas é preciso senso crítico. Este blog, por exemplo, contém muitas coisas que fui aprendendo sobre fotografia através da prática, da leitura de livros e de conversas com outras pessoas interessadas na área. Mas são informações que refletem a minha história e as minhas preocupações. Veja só: eu ilustro todos os textos com fotos que refletem a minha preferência: feitas com filme, esteticamente interessantes e que contenham um traço experimental, conceitual ou que retratem a vida contemporânea de forma contundentemente simples. Mas é apenas uma forma de boa fotografia. Há milhões de outras, que eu posso até não gostar, mas que pode ser mais interessante para você.

Você ganhará muito mais se, em vez de simplesmente reproduzir as ideias e conceitos discutidos aqui ou em outros lugares, fazer as suas próprias experimentações e ver o que faz sentido ou não na sua prática. Em suma, não me dê ouvidos. Leia, reflita, comente, mas, por favor, questione, sempre.  No fim das contas, eu, você ou qualquer outra pessoa que fala de fotografia na rede temos aspirações, dúvidas e perguntas semelhantes. E ninguém tem a melhor resposta: a melhor resposta é a que você encontra no seu percurso.

Um comentário sobre “Não me dê ouvidos

  1. Sou leitor assíduo do blog, sempre vejo os novos conteúdos e reflexões. O que mais gosto nos artigos é que eles nos levam a refletir, e não a assimilar uma visão específica, ainda mais que quando se fala de fotografia, aceitar um ponto de vista como verdade é burrice, a fotografia se constrói a partir de diversos pontos de vista, pontos de vista individuais. Mas é realmente preocupante ver esse poder que a internet realmente tem, durante as eleições fomos o tempo todo bombardeados com e-mails difamando candidatos utilizando informações totalmente falsas. A internet é uma excelente ferramenta, mas tem de ser usada sempre com cautela.

  2. Lucas,

    Obrigado pelo comentário. Concordo com sua reflexão. De fato, nas últimas semanas, fomos bombardeados com muitas informações, a maior parte delas nocivas. Como é muito importante manter a liberdade de expressão, a nossa única defesa é o senso crítico.

    Aqui no CO tento ao máximo ser pouco diretivo. Prefiro apontar questões, levantar lebres e, sempre que possível, não fechar as questões, deixando-as abertas para que cada um as resolva da forma que preferir. Nem sempre consigo, até porque temos uma tendência cultural a finalizar tudo, e aí nesses casos cabe ao leitor, da mesma forma, ser crítico.

    Um abraço.

  3. Eu acho que a concisão da sabedoria popular tem seus méritos. Ouço desde sempre: “Se conselho fosse bom, não se dava. Se vendia.”. E eu deveria encerrar a minha resposta por aqui. 😉

    Mas nós estamos na internet. Mais é mais. Quantidade acima de qualidade. Achismo, mesmo que baseado em sofismas, é tão considerado quanto fatos. Filtrar as informações relevantes leva muito mais tempo do que achá-las. Se antigamente era necessário um certo conhecimento para encontrar as respostas, hoje as respostas (?) são fornecidas em avalanches. E essa quantidade também é vista nos produtos. As ferramentas começam a ter mais relevância do que a finalidade. As coisas são quase que sob medida.

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