Não se preocupe em melhorar sua fotografia

Praticamente todas as pessoas que começam a fotografar mais seriamente querem melhorar as suas fotografias. É muito comum nas listas de discussões ver tópicos como “quero tirar fotos melhores”, “qual o melhor equipamento?”,  “qual a melhor técnica para essa situação?”. Parece que é uma qualidade quase inerente do ser humano que uma atividade precise ser feita da melhor maneira possível. Dificilmente questionamos isso. Parece ilógico fazer algo sem querer fazer o melhor. Mas será que há lógica por trás dessa premissa?

É claro que quando se é um profissional, fazer o seu melhor é uma questão de sobrevivência. Mas quando se é amador, isso não é necessário. Pode-se fotografar como se bem entende. Vejo que o desejo de fazer o melhor do amador está ligado à visão da fotografia como forma de expressão. Poder melhorar, nesse caso, significa dar vazão à intenção fotográfica sem obstáculos técnicos. Isso é compreensível, mas isso não é necessariamente fazer fotografias melhores, e sim fazer fotografias que correspondam à intenção do fotógrafo. Se eu sugerir a abolição dessa preocupação em fazer fotos melhores, posso ser tachado de preguiçoso e de não incentivar a ânsia natural do ser humano pelo desenvolvimento. Então, em vez disso, podemos olhar para algumas possíveis armadilhas em que a vontade de melhorar as fotos pode nos fazer cair.


Michael Donovan

1. Comprar equipamentos excessivos ou desnecessários. A primeira coisa que você vai ouvir quando disser que quer melhorar suas fotos é que você precisa de uma câmera melhor. Não importa qual é a sua câmera, ela nunca será a ideal. E aí a tendência é trocar de equipamento na esperança de que o aprimoramento venha automaticamente junto com a nova máquina – ou a nova lente, o novo tripé. No entanto, a menos que você vá fazer um tipo muito específico de fotos, faz muito mais diferença saber usar o equipamento que você tem do que trocá-lo.

2. Virar um obcecado pela técnica. A segunda coisa que você vai ouvir é que para melhorar suas fotos você deve fazer um curso ou comprar um livro. Aumentar o seu nível de conhecimento parece – e é – uma sugestão lógica e benéfica. O grande problema é que 80% dos cursos e 90% dos livros vão focar em duas coisas básicas: transformar você em um aprendiz de engenheiro que sabe tudo sobre câmeras fotográficas e criar a impressão de que fotografar é simplesmente acertar a exposição. Você saberá tudo sobre máquinas, lentes, abertura, velocidade e ISO. Mas aprenderá pouco sobre a parte difícil da fotografia: a composição, os conceitos, como criar uma imagem significativa visual e textualmente.

3. Fazer uma fotografia padronizada. Quando se fala em fazer melhores fotografias, inevitavelmente se cai na questão do que é uma fotografia boa ou ruim. E aí, você corre o risco de cair numa série de padrões e clichês que são tidos como exemplos de boa fotografia para a maior parte das pessoas. Isso pode levar você a inibir sua criatividade, sua capacidade de experimentação e de expressar a sua visão através da fotografia – que era o motivo pelo qual você quis ser melhor, em primeiro lugar.


Marina Rocha

4. Tornar-se competitivo. A ânsia de querer ser melhor pode nos levar a atitudes mais competitivas, como buscar a validação através de concursos ou ser excessivamente crítico em relação aos outros. Num mundo em que há milhões de fotografias feitas a cada instante, ser competitivo é dar um tiro no pé. Ganhar um prêmio ou falar mal de uma foto não faz da nossa fotografia melhor. Ela continua sendo um testemunho pessoal, uma declaração de existência e de visão, um texto visual com a nossa caligrafia. Se formos olhar a fundo, talvez a tal boa fotografia simplesmente não exista. Há a fotografia, e pronto.

5. Depender demais da aprovação externa. Ok, você comprou uma câmera nova, fez um curso, aprendeu a fazer todo o tipo de clichê. Mas e aí, como saber se está indo bem ou não, se está na direção certa? Você precisará de alguma referência, que geralmente significa apreciação e aplauso dos outros. Sem perceber, você pode acabar fazendo fotografias em função dessa aprovação, e não daquilo que importa pra você. E aprovação é como uma droga: você sempre quer mais, ela nunca parece suficiente, o que pode levá-lo a uma descaracterização total da sua fotografia. Talvez seja necessário, para se preservar disso, aceitar que nem sempre será possível ter uma referência segura indicando o caminho certo. A incerteza faz parte do caminho solitário do fotógrafo – assim como o de qualquer artista.

Considerando esses aspectos, talvez seja útil, em vez de pensar em melhorar a sua fotografia, pensar no que você quer que ela seja. O que você quer dizer, mostrar, registrar, o que for. Ao entender melhor o significado da fotografia para você, haverá menos riscos de cair nessas armadilhas criadas pelo desejo genérico do melhor.

Um comentário sobre “Não se preocupe em melhorar sua fotografia

  1. Pensando nisso, deixei de ter urgência em comprar alguns equipamentos que julgava necessários.

    Na estrada do aprendizado, diria que ainda estou nos primeiros passos. Mas já assimilei que devo me preocupar mais com a mensagem que quero deixar do que com a técnica ou equipamentos. Aprendo técnicas e leio manuais, sim, mas não faço mais disso o foco do meu trabalho.

    Já fui questionada, inclusive, se realmente estava fotografando uma prima na sua formatura sem o flash. E estava mesmo, enquanto as condições me permitiram!!!

  2. O amador tem suas vantagens. Eu resolvi tomar um pouco de ar. Há alguns meses eu larguei os fóruns, blogs (ok, estou lendo o teu) e outras coisas relacionadas e não saio mais com a câmera. Resolvi apenas ver o que me cerca e o que eu acho interessante mas sem registrar nada. Rever alguns filmes antigos (ontem foi Paris, Texas) e me concentrar mais na fotografia. Futuramente eu retorno a fotografia me concentrando mais no que me dá prazer.

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