Os mitos da atividade fotográfica

A partir de uma conversa sobre um texto do Ivan, em que ele descreve o processo de fazer e selecionar uma foto, surgiu a questão de quantos mitos são cultivados pelas pessoas que se interessam pela fotografia de uma forma mais séria. Em especial, são cultivados por amadores, que idealizam o fazer fotográfico e os fotógrafos consagrados. Essas concepções muitas vezes limitam e dificultam a atividade criativa de quem fotografa, pois estabelece uma série de regras relativas a como as coisas devem ser. Os fotógrafos profissionais, em sua maioria, conhecem melhor o processo e não podem se dar ao luxo de limitar o próprio trabalho, e costumam cair menos nesse tipo de erro. Vamos pensar em alguns dos mais citados.

O mito do controle

Mostre uma foto para um fotógrafo amador e um dos comentários que você pode ouvir é: “está boa, mas esta árvore atrapalhou”. Você pode responder simplesmente: “mas ela estava lá” ou “é que eu estava sem a minha retroescavadeira na hora, senão a teria tirado dali”. A fotografia não é uma pintura. Não é possível controlar tudo o que vai sair na foto, mesmo quando se trabalha em estúdio. Pelo mesmo processo, mas da forma inversa, é possível ouvir elogios a uma foto que nada tem a ver com o trabalho do fotógrafo: “esta flor é muito bonita”. Pois bem, o que é bonito é o objeto e não a foto. Não há muito mérito aí, apenas um reconhecimento. É preciso entender então, o que está de fato sob o controle do fotógrafo (o corte, o ângulo, a escolha da lente, a leitura da luz, o conceito) e o que é característica da cena, pois assim é possível reconhecer o que é criação e dar o valor correto ao trabalho que foi feito.

O mito da originalidade

Tem-se uma idéia de que para ser bom, é preciso ser diferente. Isso pode ter sido verdade um dia, mas no mundo de hoje, saturado de imagens de todos os tipos e em que milhares de fotos são publicadas a cada segundo na internet, preocupar-se com ser original é uma atitude masoquista. É muito difícil fazer algo novo, e mais difícil ainda fazer algo novo todos os dias. Faz muito mais sentido ter uma produção coerente, coesa e significativa, mesmo que seja apenas do ponto de vista pessoal, do que querer ser diferente. Até porque ser diferente sem conteúdo não quer dizer nada. Outra faceta do mito da originalidade é que não se pode “copiar” um estilo. Ora, todos os grandes artistas são conscientes da influência que sofreram. Dificilmente se vai longe quando se começa do zero. É permitido ser influenciado, é permitido reler o trabalho de outras pessoas. Isso faz parte da arte e não diminui o que você faz.

O mito da foto única

Eu gosto bastante de ver em uma exposição uma obra pronta, de qualquer tipo, junto com os diversos estudos e esboços que o artista fez preliminarmente. Isso mostra que as boas obras de arte não são fruto de um rompante intenso e apaixonado. Geralmente, são fruto de um trabalho árduo e sistemático em que diversas possibilidades são testadas, resultados organizados, elementos categorizados etc. Da mesma forma, é muito interessante ver contatos de fotógrafos famosos e ver o quanto de suas fotografias são descartadas. Bons fotógrafos não fazem apenas uma foto. Fazer muitas, e escolhem as melhores. Para fazer uma foto boa, é preciso fazer dezenas ou centenas de “ruins”. E não há nada de errado com isso, faz parte do processo. E aqueles que olham para esse processo buscando o que deu certo ou não têm mais chance de conseguir bons resultados de forma consciente.

O mito da foto pronta

Este é um mito originário da época do filme e que, surpreendentemente, se mantém nos tempos digitais. Antigamente, fazíamos as fotos, deixávamos no laboratório e recebíamos cópias ampliadas perfeitas, bem equilibradas em relação à luz e às cores (salvo algum desastre). O problema é que não se via que o funcionário do laboratório fazia cortes, corrigia cores, equlibrava a exposição e outras coisas. E hoje, quando podemos ver e controlar esse processo nos programas de edição de imagens, temos uma idéia de que isso significa trapacear, e que os bons fotógrafos não precisam disso. Entretanto, um fotógrafo realmente bom procurará fotografar no sentido mais amplo, que é de processar as suas fotografias depois do trabalho com a câmera. Se negar a fazer isso significa jogar fora pelo menos 50% da possibilidade de criação envolvida no processo. Ao selecionar as fotos, ao cortar, alterar exposição, cores, luzes etc. ele está criando muito mais do que no momento em que aperta o botão da máquina. E a fotografia é apenas uma interpretação das coisas: ela pode ser reinterpretada de diversas formas sem perder o seu valor por causa disso.

O mito do instante decisivo

Muitos fotógrafos amadores se sentirão ofendidos se alguém qualificar a fotografia como um mero apertar de botão. No entanto, muitos deles confirmam essa concepção ao acreditar que a fotografia é feita exclusivamente na câmera. Tende-se a supervalorizar o equipamento e acreditar que toda a atividade fotográfica se resume à sua operação. Logo, um bom fotógrafo é aquele que sabe mexer numa câmera, que sabe usar controles manuais — ou seja, que tem o total controle da máquina no tal instante decisivo. No entanto, a fotografia é muito mais ampla do que isso. Ela começa a ser feita muito antes de se pegar na máquina e termina muito depois. O fotógrafo pode escolher reconhecer esse processo ou não. O planejamento, a escolha do assunto, a expressão de um conceito, a leitura da luz são exemplos da fotografia anterior à câmera. Selecionar e descartar fotos, processá-las num editor de imagens, selecionar o suporte, imprimir, ampliar, pendurá-las na parede ou vendê-las são elementos da fotografia após a câmera. Quem reconhece tudo isso e entende que operar a câmera é apenas mais um elemento nessa cadeia tem mais chance de conseguir boas fotos.

Esses são apenas alguns de muitos outros mitos possíveis. O fundamental é que essas crenças levam a uma visão distorcida da fotografia, em que se tem uma série de regras sobre o que é certo ou é errado. Mas, se tratando de processos criativos, é contraprodutivo se autolimitar de forma inconsciente, sem questionar as regras que se está obedecendo. Cada um é livre para entender a fotografia de qualquer forma, seja de uma forma mais restrita ou mais ampla, mas que isso seja feito a partir dos próprios interesses e objetivos,  não a partir de concepções rígidas e pré-históricas que nem se sabe porque estão sendo aplicadas.

A fotografia amadora deveria ser muito mais livre, uma vez que não é encomendada nem precisa seguir um determinado padrão. No entanto, ao se apropriar, sem questionamento, de regras que apenas cerceiam as possibilidades, ela se torna mais engessada do que a fotografia profissional. Não é paradoxal?

Foto: Kris Krüg

Um comentário sobre “Os mitos da atividade fotográfica

  1. Rodrigo;
    O mais interessante do pensamento e da conversa (ou da conversa e do pensamento, se formos seguir rigorosamente o Vigotski), é esse desdobramento. Uma coisa começa com uma foto, alguém comenta, esse comentário leva à produção de um artigo, você o lê e ele o estimula, você escreve outro artigo, abordando temas relacionados com tudo o que aconteceu antes mas em uma outra abordagem e especificação. E assim o assunto é pensado por cada um e socialmente.
    Você está muito certo em tudo o que é dito acima. O mito 3 talvez seja aquele do qual é mais difícil se livrar, e paradoxalmente os que tentam a originalidade recaem na repetição. O Amilcar de Castro tem um texto sobre originalidade que é sensacional, no qual diz algo como “é original quem vai às origens”, isto é, quem faz o processo de pesquisa e desenvolvimento que você menciona no artigo.
    Abraços

  2. O mito da foto única é um dos que mais me perturba. E, quando comecei a fotografar, ainda de forma amadora, era o que me fazia considerar amadora.

    Se alguém gostasse de uma foto minha, eu logo dizia “ah, mas tive que fazer umas duzentas pra sair essa…”.

    Hoje eu vejo que é natural fazer duzentas fotos pra conseguir uma do jeito que você desejava. Como os rascunhos do desenhista =)

  3. Continuando o assunto acerca do terceiro mito…
    Penso que a forma livre de produção, ou seja, sem a amarra da fotografia “espetacular” em um clique, só auxilie no aumento de fotografias boas dentre as inúmeras que se pode produzir em uma mesma sessão, com o passar do tempo.

    Parabéns pelo artigo!

    Abs

  4. Grande texto Rodrigo!

    Estou a algum tempo digerindo um ideia muito parecida com o que você falou aqui.

    Normalmente, quando se entra na fotografia você tem diversas iluzões, (ou mitos) e que conforme o tempo vai passando e você vai evoluindo as coisas começam a ficar mais claras.

    []s
    Marcio

  5. Rodrigo, em meio a tantos livros voltados à técnica você bem que poderia escrever uma obra com esta temática, acessível ao fotógrafo leigo, hobbysta (não tão filosófica quantos as da Susan Sontag ou aquele livro que você nos disponibilizou da fotografia sob o ponto de vista sociológico), mas nesta mesma linguagem, com este mesmo bom senso. Acho que seria muito útil nos cursos de fotografia.

  6. Onde eu assino?
    Muito bom o texto, fotografia é uma arte no meu modo de ver, os que se aprofundam mais e tem conhecimento de como chegam ao resultado das suas fotos, vao obter resultados muitio bons.
    Parabens pelo texto

  7. Achei o artigo excelente.
    Mas aos olhos principiantes, os mitos vão continuar mitos. O seu olhar experiente precisou de tempo para desmitificá-los.
    Quem consegue se apropriar da sabedoria alheia torna-se sábio também.

    Parabéns

  8. é bom lembrar que mitos criam, deuses, céu… inferno. etc. e os mitos são para explicar “coisas”, quanto a foto pronta, me faz lembrar do texto do Vilèm Flusser, quando diz que o Aparelho deve ser ultrapassado, devemos brincar com ele até fazermos mais do que ele nos “conduz” (aprisiona) fazer.

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