Polaroid: linguagem agonizante

A respeito do post sobre o The Impossible Project, publicado no blog do 508: o projeto em questão é uma iniciativa para reviver os filmes fotográficos instantâneos, depois que a Polaroid abandonou a fabricação desse tipo de produto em 2008. Sempre que esse assunto é trazido à tona, fala-se na viabilidade econômica, na necessidade de adequar o produto à era digital e que o filme instantâneo morreu porque o que se consumia não eram as fotos, e sim a possibilidade de vê-las logo após a captura.

Isso tudo pode estar correto, mas para os fotógrafos, especialmente aqueles que utilizavam as Polaroids como uma forma de expressão, o que morreu foi toda uma linguagem fotográfica. A moldura branca texturizada, o formato quadrado (embora existam câmeras instantâneas que produzem fotos retangulares), cores características e, sobretudo, a tendência a uma atitude fotográfica mais descompromissada, quase como um precedente do movimento Lomo que surgiu há alguns anos.


gregory mc

A fotografia instantânea se diferencia de qualquer outra, seja analógica ou digital, por ser nada mais e nada menos do que um objeto. Não há negativos, não há arquivos digitais. Apenas uma foto pronta, sem intermediários, sem ajustes, sem correções, sem edição. Nem na fotografia digital temos esse caminho realizado de forma tão rápida e direta. A realização concreta da imagem torna as Polaroids testemunhas implacáveis da vontade do fotógrafo, ao mesmo tempo em que potencializa a imagem como possibilidade artística, ao trazê-la “viva” e emoldurada instantaneamente.


Ashley Sauers

Há também projetos relevantes que usam as fotografias instantâneaas, como o FOP@West, realizado por um grupo que oferece às crianças do oeste da China seus primeiros retratos: Polaroids.


Girl with her Polaroid – Ran Phang

Nem tudo ainda está perdido. Além da iniciativa do The Impossible Project, há ainda a Fujifilm que, surpreendentemente, tem sido agressiva na manutenção de suas principais linhas de filme e incentivado a produção fotográfica analógica, como faz com o site Choose Film, por exemplo. Ainda é possível comprar filmes instantâneos no site americano ou inglês, além do próprio formato de fotografia instantânea da Fuji, o Instax.


on the cabinet in the hall – mamako7070

A fotografia, especialmente a fotografia como forma de expressão, antes de ser uma questão técnica ou econômica, é uma questão de linguagem. É claro que, como qualquer tipo de atividade de mercado, serão as questões técnicas e comerciais que ditarão o que é ou não possível fazer. Mas talvez seja interessante olhar para as mudanças em termos de potencialidades que são perdidas ou ganhas, sem uma visão maniqueísta de que a fotografia digital é uma panacéia ou que o filme que é fotografia de verdade. Quando vejo essas fotos fantásticas feitas com as câmeras instantâneas, penso que, se é difícil impedir que elas acabem, ao menos devemos entender o que está acabando junto com elas, para que as possibilidades, no que refere à linguagem, não sejam perdidas também.

Um comentário sobre “Polaroid: linguagem agonizante

  1. Rodrigo;

    Acordei neste domingo, aniversário da Madona, e abri o computador. A primeira coisa que li foi este seu artigo, agora mesmo, cinco minutos atrás.

    Talvez seja o artigo que mais diretamente mostra como a linguagem, as possibilidades da linguagem fotográficas estão associadas a um modo de fazer. Da forma -excelente e direta- exposta por você, não é preciso muita argumentação, não são precisas longas análises, pois o caso é tão eloqüente que deixa desnudada essa relação entre forma de fazer e suas possibilidades especiais.

    Parabéns.

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