Quem tem medo do Instagram?

Se encararmos a fotografia dentro do seu percurso histórico, veremos que ela se iniciou de forma extremamente elitista e foi se tornando cada vez mais popular. Em sua gênese, era uma atividade que dependia de um conhecimento técnico bastante complexo e restrito, fazendo com que pudesse ser relizada apenas por profissionais que dominassem essas informações. A primeira revolução que tornou a atividade fotográfica mais popular foi a Kodak Brownie, câmera lançada no início do século passado e que permitia que pessoas sem conhecimentos técnicos pudessem fotografar e ter suas fotos reveladas. Depois disso, outros avanços tecnológicos incrementaram o acesso de mais e mais pessoas à arte fotográfica: o filme 35mm, o filme colorido, as câmeras automáticas, a revelação em uma hora, as câmeras digitais e, mais recentemente, a fotografia com telefones celulares e seus aplicativos, como o Instagram.

Há um aspecto comum a todos esses momentos: aqueles que dominavam o conhecimento necessário para produzir o resultado têm uma reação de aversão à nova tecnologia, ressentindo-se pelo fato desse conhecimento agora não ser mais essencial para fotografar bem. A frase do momento entre fotógrafos amargurados é: “hoje em dia qualquer um com um celular ou uma câmera digital se acha fotógrafo”. Podemos imaginar, ao longo da história, as reclamações emburradas daqueles que tiveram a sensação de superioridade derrubada pela tecnologia:

1900: “agora qualquer um com uma Brownie já se acha fotógrafo, nem precisa saber como revelar um filme”
1930: “agora qualquer um com essas camerazinhas de 35mm se acha fotógrafo, nem precisa carregar uma câmera de fole”
1950: “agora qualquer mané pode fazer fotos coloridas”
1970: “agora qualquer dona de casa pode fotografar com essas máquinas eletrônicas, nem precisa saber como medir a exposição”
1980: “agora o cara leva o negativo no laboratório e sai com as fotos em uma hora! Cadê a dificuldade?”
2000: “as câmeras digitais acabaram com o encanto da fotografia, na hora você já vê como ficou e se estiver ruim, apaga”
2010: “agora qualquer adolescente com Photoshop sabe transformar fotos ruins em boas”
2012: “qualquer um com Instagram faz efeitos sem nem saber usar o Photoshop”


I, Timmy

Dá pra perceber o ranço que existe quando algo se populariza, se torna mais fácil… O pessoal das “antigas” fala do romantismo, de que não é mais necessário estudar as bases da fotografia para se fazer boas fotos. Mas, no fundo, é simples birra porque algo que antes os fazia se sentir especial, um conhecimento de difícil acesso, se torna disponível a todos. E aqueles cujo ego está baseado na posse de algo — como o conhecimento — detestam perder aquilo pelo qual se sentem melhores do que os outros.

Há algo de diferente nesse novo milênio que também se encaixa nessa questão: hoje não podemos mais deter a informação como fazíamos antes. O conhecimento se tornou público, democrático, acessível e disponível. Tentar barrar o acesso a ele é uma luta perdida. Não é mais possível ganhar status, dinheiro ou reconhecimento simplesmente por possuir um conhecimento ou uma informação e vendendo o acesso a ele, pois ele não é mais restrito. Até mesmo na música isso finalmente ficou claro, e hoje os artistas ganham dinheiro fazendo shows e não mais vendendo CDs.

É fantástico que hoje qualquer pessoa possa fazer uma foto com um aspecto visual interessante apenas usando seu celular. Aqueles que quiserem se destacar não poderão mais fazer isso simplesmente por estar de posse de um conhecimento que os outros não tem — assim era fácil. Agora, terão que se sobressair fazendo algo interessante com o conhecimento que todos têm. E nesse mundo em que todos têm as ferramentas à disposição, só quem de fato tem mérito se destaca. Mas esses fotógrafos capazes e talentosos nunca tiveram medo do Instagram.

Um comentário sobre “Quem tem medo do Instagram?

  1. Olha, eu acho que um fotografo é um fotografo, com instagran ou sem instagram. Porque fotografia não é apenas equipamento, fotografia é olho, observação. Até mesmo para usar o cel ou o photoshop e ter resultados legais a pessoa precisa saber o que quer com as fotos e a maior parte do povo so quer registrar bons momentos – o que é absolutamente legítimo! Mas um fotografo é um fotografo…

  2. Rodrigo, no último parágrafo você bota o dedo na ferida. Entretanto creio que “a coisa” ultrapassa o instragram. Em meia hora de thumblr, navegando com o tag “photography”, dá para ver claramente, ainda que sejam fotos replicadas, que há uma lógica fotografica emergindo; Ela é ágil, vibrante… não se prende a modelos, busca ser direta: quer naquilo que mostra e almeja, quer na “equivalência” que os autores dos microblogs julgam encontrar. Por isso essa lógica é prenhe de mensagens e significados.

    Resumindo, novos tempos, novos tempos…. e até eu que torcia o bico para o instragram acabei por adotá-lo…

  3. Lembrei-me do que sempre digo nas aulas, para os futuros designers: ferramenta é ferramenta, e não faz nada por si só. Uma ferramenta não é boa ou má, bom ou mau é o uso que se faz dela.

    Vejo a evolução da fotografia nos dois extremos, facilitando a vida de quem só quer apertar o botão tanto quanto a de quem sabe ajustar todos os recursos disponíveis para fazer uma foto com o resultado almejado. Nenhum desses avanços, ao meu ver, foram prejudiciais à fotografia, especialmente no campo profissional. Afinal de contas, a diferença entre as fotos de um “moleque qualquer com uma câmera de entrada” não são exatamente concorrência para as fotos de um profissional bem preparado, ainda que ele esteja com a mesma câmera de entrada.

  4. Oi, Rodrigo! Fazia um tempo que não acessava o Câmara Obscura…
    Como sempre, teus artigos são ótimos! Gosto bastante da maneira como você escreve. Destaco o trecho em que diz que “no fundo, é simples birra porque algo que antes os fazia se sentir especial, um conhecimento de difícil acesso, se torna disponível a todos. E aqueles cujo ego está baseado na posse de algo — como o conhecimento — detestam perder aquilo pelo qual se sentem melhores do que os outros.” Prefiro finalizar meu comentário com as tuas próprias palavras que, ao meu ver, dizem tudo o que eu penso.

    Forte abraço!

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