Sobre A Fotografia como Expressão do Conceito, de Arlindo Machado

Um dos autores mais profícuos na discussão da natureza da fotografia em lingua portuguesa é Arlindo Machado. Em A Ilusão Especular, ele faz uma defesa eloqüente do caráter interpretativo e simbólico da fotografia, negando a visão de que a mesma seria um espelho do real. No artigo “A Fotografia como Expressão do Conceito”, publicado no número dois da revista Studium, Machado realiza novamente essa defesa, debatendo a concepção da fotografia como índice proposta por alguns autores. Para isso, ele baseia a tese em Flusser e sua filosofia da caixa preta.

Considero o artigo completo fundamental para a compreensão das tendências atuais de classificação da fotografia, bem como pelo contato com as posições do autor. No entanto, gostaria aqui de destacar um trecho sobre como a forma atual de entender a fotografia leva a uma distorção muito comum entre fotógrafos amadores e profissionais. Segue o extrato:

“Fotografia: Conceito em Expansão

Em termos de possibilidades criativas e heurísticas, a tradicional ênfase na fotografia como índice introduziu nessa área de produção simbólica uma outra distorção: privilegiou o aperto do botão disparador da câmera como o momento emblemático da fotografia, deixando de lado tanto os preparativos anteriores do motivo a ser fotografado e os ajustes do aparato fotográfico, como também todo o processamento posterior da imagem obtida. Ainda hoje, apesar da crescente digitalização do processo fotográfico em todos os seus níveis, grande parte dos círculos teóricos e profissionais permanece ainda paralisada pela mística do “clique”, do “momento decisivo” (Cartier-Bresson, 1981: 384-386), daquele instante mágico em que o obturador pisca, deixando a luz entrar na câmera e sensibilizar o filme. Todo o demais, isto é, o antes e o depois do “clique”, é considerado afetação pictórica (icônica) ou “manipulação” intelectual (simbólica), fugindo portanto do âmbito do “específico” fotográfico. A insistência, por parte de muitas teorias e práticas ainda em voga, numa suposta natureza indicial da fotografia, produziu, como resultado, uma restrição das possibilidades criativas do meio, a sua redução a um destino meramente documental e, portanto, o seu empobrecimento como sistema significante, uma vez que grande parte do processo fotográfico foi eclipsado pela hipertrofia do “momento decisivo”. O sistema de zonas de Ansel Adams parece ter sido a única “manipulação” posterior ao registro universalmente aceita (ou pelo menos tolerada) nos círculos mais restritos da fotografia. Já a digitalização e o processamento posterior da foto em computador permanecem ainda largamente contestados, no plano teórico, como procedimentos que se possam incluir no âmbito da fotografia, embora, a rigor, não exista diferença alguma entre o processamento da imagem em computador e a ampliação diferenciada das partes de uma foto através do sistema de zonas.

Mas o arranjo do objeto no seu espaço natural ou no estúdio, a disposição da iluminação, a modelação da pose, os ajustes do dispositivo técnico e todo o processo de codificação que acontece antes do “clique” é tão fotografia quanto o que acontece no “momento decisivo”. Da mesma forma, também faz parte do universo da fotografia tudo o que acontece no momento seguinte: a revelação, a ampliação, o retoque, a correção e processamento da imagem, a posterização etc. Depois de mais de um século e meio de restrições técnicas, conceituais e ideológicas, subvertidas apenas marginalmente pelos artistas de vanguarda, a fotografia começa, finalmente, a conhecer a sua emancipação e a derrubar as fronteiras que a limitavam. Com a câmera digital e o software de processamento tomando rapidamente o lugar das tradicionais técnicas fotográficas, podemos dizer que a fotografia vive um momento de expansão, tanto no que diz respeito ao incremento de suas possibilidades expressivas, como no que diz respeito às mudanças em sua conceitualização teórica” (Machado, 2000).

É muito comum termos essa concepção de que a fotografia se resume ao momento do clique. Vamos isso nas idéias de que o bom fotógrafo é aquele em que a foto sai boa já da câmera, que manipulação de imagem é uma espécie de truque para quem não sabe fotografar e coisas do tipo. Vemos também, a fotografia como sinônimo de registro e captura, enquanto na verdade se trata de uma interpretação, já que o aparelho fotográfico não é capaz de reproduzir uma realidade, e sim uma forma totalmente alterada da realidade. A distorção de uma lente é tão manipulação quanto usar clone tool no Photoshop.

Um outro sintoma do viés apresentado no texto é a supervalorização do equipamento fotográfico (câmera e lentes) como elemento mais decisivo da boa fotografia. Afinal de contas, se a fotografia precisa ser resolvida no momento do clique, o equipamento é fundamental. No entanto, como o autor coloca, o clique é quase nada. Toda a preparação de antes e todo o processo que segue são muito mais determinantes. A alteração de uma foto no processador de imagens guarda mil vezes mais possibilidades e variações do que há entre a melhor e a pior lente de uma câmera. Nem cabe falar então da escolha dos temas. Ainda assim, esses aspectos são negligenciados em prol de outros aspectos, exatamente por parecerem estar fora do campo da fotografia.

O resultado natural é que os fotógrafos acabam limitando as próprias possibilidades, na medida em que 1) não entendem todas essas decisões e ferramentas como parte de um só processo; e 2) não percebem, ou não se interessam por todas as distorções existentes no processo que ocorre dentro da câmera para a produção de fotografias, acreditando que estão apenas registrando, capturando ou copiando a realidade. Essa concepção não altera a natureza interpretativa da fotografia, apenas tira do fotógrafo a capacidade de, de fato, criar, uma vez que lidando com uma imagem técnica, é preciso entender para de fato se colocar no processo criativo.

Dá pra se perguntar porque esse caráter rígido da fotografia como índice permanece tão forte não só no senso comum mas também entre fotógrafos profissionais e acadêmicos. Uma possível contribuição para isso talvez esteja no fato de algumas agências dependem muito da idéia da fotografia como baseada no real: o jornalismo, a publicidade (que embora abuse da manipulação, “vende suas fotos como a verdade”) e até mesmo instituições governamentais como a polícia e a justiça. No entanto, os fotógrafos que não têm nenhum compromisso com esses usos não têm motivo aparente para cercear as suas próprias possibilidades criativas. Por que, então, parece tão difícil aceitar toda a flexibilidade da fotografia?

Referências
Machado, A. (1984). A Ilusão Especular. São Paulo: Brasiliense.
Machado, A. (2000). A fotografia como expressão do conceito. Studium, 2. http://www.studium.iar.unicamp.br/dois/

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