Tipos de câmeras e suas linguagens

Freqüentemente, vejo as pessoas perguntarem qual a melhor câmera, ou se a melhor opção é uma compacta ou uma reflex, qual a melhor lente etc. É importante que se tenha em mente que para dizer que uma coisa é melhor é preciso que haja uma classificação subjetiva a partir de uma referência. Essa subjetividade, que é individual, significa diferença de opiniões: o que é melhor para um não é melhor para outro.

No processo de escolha de uma câmera, geralmente toma-se algumas dessas referências (resolução, lentes, iso, preço, tamanho) e tenta-se criar uma hierarquia de acordo com aquilo que é desejado. O que acho que falta um pouco nessas discussões são reflexões sobre as diferentes linguagens ligadas a cada tipo de equipamento. Quando se fala “se você puder, compre uma DSLR”, deixa-se de lado uma série de aspectos importantes. Nenhum tipo de câmera é melhor em termos absolutos.

A idéia para esse texto surgiu com esse tópico postado pelo Ivan no Mundo Fotográfico, somado a outras discussões que já tive sobre o tema no Digiforum e com outros amigos. Quais as diferenças, em termos de linguagem, entre os diferentes tipos de equipamento fotográfico? Para saber isso, precisamos conhecer suas características técnicas, mas não nos limitarmos a ela, e sim transportá-las para o universo da linguagem. Falo aqui apenas dos tipos de câmeras que já usei.

Compactas digitais

São câmeras pequenas, com sensores pequenos e lentes fixas. Embora sejam um pesadelo para os fanáticos por tecnologia avançada, podem ser muito bem aproveitadas na mão de fotógrafos criativos. O pequeno sensor e, conseqüentemente, a curta distância focal das lentes produzem uma enorme profundidade de campo mesmo quando não se usam aberturas tão fechadas. Além disso, por não terem espelho, não tremem na hora da foto e podem ser utilizadas em velocidades realmente baixas, como 1/8 ou 1/4 com as mãos bem firmes. A falta de isos altos é compensada pelo ganho de profundidade sem necessidade de fechar o diafragma e pela possibilidade de fotografar em velocidades menores de 1/30, impensável numa reflex sem tripé.

Portanto, a linguagem da câmera compacta relaciona-se a fotos com muitos elementos no foco, fotos de rua ou outras situações em que uma câmera discreta é fundamental, facilidade em fotos macro, uso de baixas velocidades sem borrões, entre outras coisas. Um exemplo de uso das qualidades de uma compacta é a foto do Luiz Fonseca nessa página.

Reflex digitais

O que mais me chama a atenção nas reflex digitais é a combinação híbrida entre um sensor de alta tecnologia com um modelo de câmera que existe há quase um século. As reflex não mudaram em nada na sua maneira de funcionamento, exceto pela substituição do filme pelo sensor. E, se antes o corpo da câmera era o que menos importava, agora isso é diferente, pois o sensor está “grudado” nele para sempre. Como resultado desse modelo híbrido, temos a complicação do fator de corte (exceto nas Canon topo de linha), muito bem explicado pelo Caetano em sua coluna. Ou seja, para ter uma lente que funciona como “normal” numa DSLR, precisamos de uma lente de cerca de 37mm, que não têm as mesmas características das 50mm, mais baratas e geralmente mais claras. Com isso, essas câmeras são um pesadelo para quem gosta de grande angular, pois é necessário investir em lentes caríssimas para se obter com qualidade o efeito do amplo ângulo de visão que antes se obtinha com uma simples lente de 24 ou 28mm. Por outro lado, isso tudo é contrabalanceado pelo ganho que se tem no uso das teleobjetivas, que têm seu ângulo de cobertura diminuído, numa equivalência a multiplicação da distância focal por 1,5x ou 1,6x. O sensor maior permite o uso de isos mais altos (em parte para compensar a perda que se tem com o espelho) e a profundidade de campo é menor, permitindo o uso do desfoque com mais facilidade.

Por isso, as reflex digitais geralmente estão associadas a uma linguagem com o uso de teleobjetivas ou meias-teles, com possibilidade de uso criativo do desfoque. Ainda que maiores do que compactas, não são tão grandes e têm certa mobilidade para se fotografar na rua. A possibilidade de troca de lentes e a variedade de acessórios aumenta sua flexibilidade, embora ter uma reflex que faz tudo consome rios de dinheiro, especialmente em boas lentes GA. Com isso, o uso das lentes do kit geralmente é interessante. Apesar de não serem tão claras, já permitem o uso das vantagens do sistema reflex a um custo baixo. Um exemplo é uma de minhas fotos feitas com a 300D + Kit.

Reflex de filme

Dentro dessa categoria, temos tanto as antigas reflex mecânicas como as modernas eletrônicas com sistemas de medição e automatismos complexos, que só se diferenciam das DSLR pelo sensor. Ao contrário das irmãs digitais, as reflex de filme têm no corpo sua parte menos importante: no momento em que a cortina abre, o que faz a foto é a lente e o filme. O corpo só trará mais ou menos recursos. Portanto, uma das vantagens do filme é poder escolher o “sensor” de acordo com os interesses. Pode-se ter uma foto em PB verdadeiro, usar um cromo, um negativo vencido, e por aí vai. Com isso a variação de possibilidades é grande. Além disso, a maior parte das objetivas que existem hoje são feitas para o formato 35mm, ou seja, elas vão funcionar da forma “original”. Isso traz vantagens no uso de grande angular e a perda correspondente nas teles no sistema digital.

As reflex de filme também são grandes, dificultando um pouco a fotografia de rua. O espelho, além de barulhento, também provoca a trepidação na câmera, impedindo o uso de velocidades baixas sem tripé. O sensor de 35mm reduz a profundidade de campo, fazendo com que seja possível ter apenas um olho focado num retrato feito com uma 50mm clara. Permite um aproveitamento interessante em grande angular sem necessidade de distância focal extremamente curta, como nessa foto feita com uma 24mm.

Rangefinders

São câmeras sem espelho e, por isso, usam um visor independente da objetiva. As mais avançadas são equipadas com telêmetro e correção de paralaxe, o que permite o ajuste do foco com precisão e evitam que o que se veja no visor não corresponda ao que sai na foto. Além disso, os modelos mais avançados também permitem a troca de objetivas. Se inserem nessa categoria as clássicas Leicas série M. Pelo fato de não terem espelho, as objetivas podem ocupar mais espaço dentro do corpo da câmera, diminuindo seu tamanho.

As rangefinders são muito parecidas com as compactas em relação à portabilidade, já que têm tamanhos parecidos. Também são bastante silenciosas: o único som é o da cortina. Além disso, como o visor é independente, as fotos podem ser tiradas sem que haja o corte provocado pela subida do espelho, possibilitando manter contato ininterrupto com o assunto. Sãos as câmeras para fotografia de rua “por excelência”, consagradas por mestres como Cartier-Bresson. Fotos com Leica M:
http://www.flickr.com/photos/spacelion/314384885/in/pool-36302872@N00/
http://www.flickr.com/photos/21618643@N00/312236889/in/pool-36302872@N00/

Médio Formato

Rolleiflex, Hasselblads estão entre essas. O médio formato inclui uma série de proporções diferentes de negativos. As câmeras são mais utilizadas em estúdios, já que os negativos (ou backs digitais) maiores permitem ampliações maiores, ideais para uso em publicidade. São câmeras de tamanho maior, a maioria das mais antigas não tem fotômetro (no estúdio é mais comum o uso do fotômetro de mão) e podem ter uma ou duas lentes (Single Lens Reflex ou Twin Lens Reflex).

Há dois aspectos relativos à linguagem que acho os mais interessantes. O primeiro é que essas câmeras permitem a focalização olhando-as de cima, ou seja, a câmera fica na altura da barriga. Isso quebra um pouco a agressividade que se tem ao apontar uma reflex para uma pessoa, “escondendo-se” atrás da máquina. Pode-se fotografar enquanto a pessoa olha para o seu rosto, tornando o contato entre fotógrafo e fotografado muito mais leal e confortável para este último. Além disso, as fotos feitas em médio formato, na maioria dos casos, são quadradas, o que muda totalmente a forma de compor e enquadrar. Alguns exemplos:
http://www.flickr.com/photos/shaunroberts/313580777/in/pool-mediumformat/
http://www.flickr.com/photos/janeway/315789014/in/pool-mediumformat/
http://www.flickr.com/photos/je-ne-suis-plus-ici/309758419/in/pool-mediumformat/

Existe uma imensa variedade de equipamentos no mercado. Nem tudo é DSLR. Cada um desses equipamentos tem suas características e seus elementos de linguagem. Não há melhores ou piores câmeras em termos absolutos. Há possibilidades diferentes. Antes de mudar de equipamento, talvez seja interessante tentar “esgotar” as possibilidades daquilo que se tem em mãos. E, com criatividade, é possível que um só equipamento nunca se esgote.

Foto: Alfonso Romero

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