Três abordagens

De tempos em tempos, pergunto-me se é possível fazer algum tipo de classificação da fotografia. Algumas vezes me convenço que sim, outras que não, por toda fotografia conter, invariavelmente, alguns elementos tão proeminantes que tornam débeis tentativas de divisão. No entanto, aceitando que há nela características fundamentais, podemos arriscar uma categorização, ainda que de cunho mais didático do que prático, no sentido de orientar uma produção ou até entender o que faz uma boa fotografia.

Para uma boa classificação, é preciso entender o ato fotográfico como um todo: há um fotógrafo, um aparelho, um referente e um comportamento que produz um resultado, a foto. Embora um sistema que categorize fotos possa ser interessante, acredito que, para o propósito deste espaço e das discussões que me interessam, o melhor é focar no comportamento do fotógrafo em relação ao referente, considerando que isto está obviamente ligado ao tipo de resultado que será produzido. Com isso, pode-se pensar em três tipos de abordagem: a orientada ao evento (ou objeto), a orientada à estética (ou à forma) e a orientada ao conceito.

A abordagem orientada ao evento envolve reconhecer e registrar um determinado evento ou objeto. A participação do fotógrafo se resume em selecionar os melhores enquadramentos, ajustes técnicos e momentos para que o evento, ou o objeto, sejam reproduzidos de forma que ocorra uma leitura fácil. O jogo, aqui, é criar uma imagem na qual o observador olhe a foto e veja a cena, colocando-se no lugar do fotógrafo, que não se coloca na imagem. Um exemplo é fotografar uma estátua, uma obra de arte, um edifício. Quando isso é feito de forma banal, não há mérito criativo do fotógrafo: o mérito é do artista que fez a estátua ou do arquiteto que projetou o prédio.

Já uma abordagem voltada para a forma, ou a estética, é algo como uma simulação da pintura. Nesta abordagem, busca-se uma boa composição, utilizando para isso formas, cores, luzes e sombras. Ao contrário da abordagem anterior, aqui o evento pouco importa, o que vale é o impacto visual provocado através do resultado. Para isso, o fotógrafo lança mão de cortes, distorções e manipulações a fim de atingir o resultado desejado. Não raro, é um tipo de fotografia elaborada e analisada de acordo com as regras de outras artes visuais, como terços, pontos áureos e formas consagradas de combinar cores.

A terceira abordagem é a conceitual. Nela, o mote é produzir uma imagem com grande valor simbólico, cuja leitura envolve uma desconstrução da mensagem ou idéia embutidos. Geralmente são cenas montadas, sendo que o processo de preparar a cena faz parte do ato fotográfico, pois envolve a construção do conceito envolvido na foto. O evento, ou o objeto, não tem valor por si próprio, ao contrário da primeira abordagem: o seu valor é relativo à sua importância enquanto codificador de uma mensagem. Da mesma forma, o aspecto visual também não é essencial a essa abordagem, caindo num plano secundário.

Se tomarmos essas três orientações, perceberemos que produzir fotos dentro de cada uma delas pode ser interessante, mas dificilmente teremos uma foto realmente boa dentro de alguma delas. As fotos realmente boas são aquelas que conseguem integrar duas ou até as três abordagens apresentadas. Sentimos que boas fotos são fotos completas, no sentido de retratar algo relevante, ter uma boa apresentação visual e dar margem a interpretações pessoais do observador. Percebemos que tanto bons fotojornalistas como bons fotógrafos conceituais têm um treino estético importante, transparecendo nas suas fotos de eventos e conceitos.

Para exemplificar resultados de abordagens complexas, vou recorrer a três mestres: Brandt, Gibson e Bresson. Não explicarei, no entanto, a relação de cada uma das fotos com as abordagens citadas; está é uma tarefa que deixo para o leitor.


Henri Cartier-Bresson


Bill Brandt


Ralph Gibson

Um comentário sobre “Três abordagens

  1. Parab?ns por mais este artigo, Rodrigo!

    Para variar, faz-nos refletir, n?o s? sobre o ato fotogr?fico, mas sobre n?s mesmos, pois, ao nos conhecermos e nos reconhecermos enquanto pessoas, entenderemos qual rumo estamos tomando na fotografia.

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